A Nova Era da Observação Oceânica: como os dados estão a transformar a blue tech

Miguel Santos
Miguel Santos Presidente do EMSO Portugal

ENTREVISTA

Etiquetas: #Blue Technology #Digital Infrastructure #Ocean Data #Ocean Observation

Do seu ponto de vista, quais são atualmente as principais tendências na evolução das infraestruturas de observação oceânica, e de que forma estão a influenciar o desenvolvimento do setor blue tech?

Estamos atualmente a assistir a uma evolução significativa das infraestruturas de observação oceânica, marcada por uma crescente integração entre sistemas, maior autonomia tecnológica e fortes avanços na digitalização. Neste contexto, destaca-se a consolidação de redes globais de observação, como o programa Argo, baseado na utilização de flutuadores autónomos; a crescente mobilização de plataformas de oportunidade, nomeadamente através da rede global Fishing Vessel Ocean Observing Network (FVON); a utilização cada vez mais disseminada de veículos autónomos, como AUVs, gliders, USVs e drones; e a expansão de redes permanentes de observatórios submarinos. A estas tendências soma-se o contributo crescente da ciência cidadã e das comunidades locais, que reforçam a cobertura e a relevância dos sistemas de observação.

Ao mesmo tempo, verifica-se uma crescente incorporação da inteligência artificial para o processamento e interpretação de dados em quase tempo real, bem como o desenvolvimento de digital twins do oceano, impulsionados pelo volume e diversidade de dados atualmente disponíveis.

No seu conjunto, estas infraestruturas e sistemas estão a impulsionar o setor tecnológico e da economia azul, ao permitirem uma monitorização contínua e de alta resolução do oceano. Isto cria condições para o desenvolvimento de novos produtos e serviços, desde a previsão oceânica e meteorológica até aplicações em áreas como a energia offshore, a aquicultura sustentável e a proteção ambiental.

Como vê a crescente importância dos dados oceânicos enquanto ativo estratégico, e que oportunidades estão a emergir ao longo da sua cadeia de valor?

Os dados oceânicos estão a tornar-se cada vez mais um ativo estratégico fundamental, comparável a outros grandes sistemas globais de dados, como a meteorologia. A sua relevância estende-se da investigação científica à economia azul, à segurança marítima e à adaptação às alterações climáticas.

Ao longo da cadeia de valor, estão a emergir oportunidades em áreas como o desenvolvimento de plataformas digitais e serviços de dados, como o data-as-a-service, através dos quais utilizadores e empresas podem aceder, consultar e utilizar dados sem terem de os recolher, armazenar ou gerir diretamente, promovendo simultaneamente o princípio de que os dados recolhidos para um determinado fim podem ser reutilizados várias vezes, por diferentes utilizadores e para diferentes aplicações.

Ao mesmo tempo, destacam-se oportunidades na integração de dados multissensor, combinando dados provenientes de diferentes fontes e tipos de sensores; oportunidades na promoção da interoperabilidade, em que diferentes sistemas utilizam formatos, normas e protocolos compatíveis; oportunidades no desenvolvimento de aplicações baseadas em inteligência artificial para previsão e apoio à decisão, que analisam grandes volumes de dados e geram previsões ou recomendações; bem como oportunidades na criação de mercados de dados e novos modelos de negócio associados, transformando os dados em ativos económicos, nos quais os dados são valorizados, partilhados e comercializados.

Estão a emergir oportunidades em áreas como o desenvolvimento de plataformas digitais e serviços de dados, como o data-as-a-service.

Que papel podem infraestruturas como o EMSO-PT desempenhar na ligação entre ciência, tecnologia e mercado, e na aceleração de novas aplicações e serviços?

Infraestruturas como o EMSO-PT desempenham um papel central na ligação entre ciência, tecnologia e mercado. Funcionam como plataformas de teste e validação tecnológica, permitindo que empresas e instituições experimentem e escalem soluções inovadoras em ambiente real. Ao mesmo tempo, asseguram a recolha contínua de dados oceânicos de elevada qualidade ao longo de séries temporais extensas, essenciais para compreender os processos oceânicos e para monitorizar e mitigar os impactos das alterações climáticas.

Além disso, promovem a transferência de conhecimento, facilitam a colaboração nacional e internacional e, apoiadas por financiamento adequado e políticas públicas consistentes, devem contribuir para a formação de recursos humanos altamente qualificados, criando condições para posicionar Portugal como uma referência internacional na observação oceânica.

Adicionalmente, este posicionamento é decisivo para impulsionar o desenvolvimento de aplicações comerciais e serviços inovadores baseados em dados oceânicos.

Estas infraestruturas e sistemas estão a impulsionar o setor tecnológico e da economia azul, ao permitirem uma monitorização contínua e de alta resolução do oceano.

Que fatores serão decisivos para posicionar Portugal e a Europa como líderes globais em observação oceânica e inovação associada nos próximos anos?

Para que Portugal e a Europa se afirmem como líderes globais neste domínio, será decisivo assegurar investimento contínuo em infraestruturas científicas e tecnológicas, promover políticas de dados abertos e interoperabilidade, e reforçar parcerias entre a academia, a indústria e o setor público.

É igualmente importante apoiar o empreendedorismo e o desenvolvimento de empresas emergentes e inovadoras, como startups, na área da tecnologia azul, bem como investir na formação e atração de talento altamente qualificado, em alinhamento com as estratégias europeias e internacionais para o oceano.

Portugal, em particular, dispõe de vantagens competitivas relevantes, nomeadamente a sua posição geográfica, a sua forte ligação ao mar e o seu envolvimento ativo em redes internacionais de investigação, que devem ser valorizadas e potenciadas estrategicamente através de políticas públicas adequadas e de uma visão de longo prazo coordenada entre o Estado e os diferentes setores da economia azul e da tecnologia.