À medida que as pressões ecológicas se intensificam nos ecossistemas costeiros e marinhos da Europa, as algas invasoras estão a emergir simultaneamente como um desafio e uma oportunidade ainda por explorar para a economia azul. Neste artigo, Teresa Mouga, bióloga marinha e investigadora, explora de que forma a biomassa de algas invasoras pode ser transformada de uma ameaça ambiental num fluxo de recursos valioso. Com base em investigação científica e inovação aplicada, o artigo analisa o potencial dos fertilizantes, bioplásticos e biomateriais à base de algas, ao mesmo tempo que aborda as barreiras técnicas, regulatórias e de mercado que ainda dificultam a comercialização em larga escala. Poderá a transformação de biomassa invasora em produtos circulares e de elevado valor acelerar uma economia azul mais regenerativa, resiliente e competitiva?
As algas invasoras são uma preocupação ecológica crescente em todo o mundo. Espécies como Sargassum muticum, Asparagopsis armata, Caulerpa taxifolia (no Mediterrâneo) e, mais recentemente, Rugulopteryx okamurae, representam ameaças sérias para a biodiversidade marinha nativa. Estas algas perturbam os ecossistemas costeiros, invadem praias durante as épocas turísticas de maior afluência e exigem remoção mecânica dispendiosa para evitar a decomposição e a libertação de odores desagradáveis, criando encargos ambientais e económicos.

No entanto, dentro deste desafio reside uma oportunidade única.
- As Algas Invasoras como Fluxo de Recursos
Diferentes aplicações têm sido estudadas por investigadores e empreendedores para transformar algas em produtos de elevado valor.
No Marine and Environmental Sciences Centre, em Peniche, cientistas estão a testar de que forma estas espécies podem ser reaproveitadas para a agricultura, bioplásticos, têxteis e materiais regenerativos — desbloqueando novas cadeias de valor na biotecnologia azul.
- Fertilizantes à Base de Algas
O fertilizante à base de algas não é uma invenção nova. Historicamente, pelo menos desde o século XIV, Portugal utilizava sargaço (também conhecido como moliço ou limo) como fertilizante natural e corretivo do solo na agricultura, devido à sua riqueza em azoto, ácido fosfórico e potássio — os três principais nutrientes necessários para as plantas prosperarem.
Esta prática sustentável foi em grande parte abandonada em meados do século XX com o crescimento dos fertilizantes químicos. No entanto, investigação recente reafirmou o valor das algas na agricultura.
— As algas atuam como bioestimulantes, aumentando o vigor das plantas, o teor de clorofila e a resistência ao stress. O efeito bioestimulante é atribuído à presença de reguladores de crescimento vegetal e elicitores como citocininas, auxinas, giberelinas, ácido abscísico, etileno, betaínas e poliaminas.
— Os bioestimulantes à base de algas são ecologicamente benignos, acessíveis e fáceis de aplicar, tornando-os ideais para sistemas agrícolas regenerativos modernos.
Inovadores Emergentes em Biofertilizantes:
Sargazo Global (https://sargazoglobal.com/), uma empresa dos EUA, transforma Sargassum em biofertilizantes, convertendo resíduos marinhos em biofertilizantes agrícolas para a agricultura regenerativa.
Red Diamond Compost (https://www.reddiamondcompost.com/) é uma empresa das Caraíbas que transforma algas Sargassum em aditivos orgânicos para o solo e bioestimulantes.

- Bioplásticos e Biomateriais: as Algas como Matéria-Prima Circular
Além dos usos agrícolas, a biomassa de algas oferece potencial em aplicações industriais através da extração de polissacarídeos como ágar, alginatos, carragenanos, celulose, ulvanas, laminarina e fucoidanas. Estes compostos estão a ser estudados para utilização na indústria dos bioplásticos.
— Os polissacarídeos derivados de algas são biodegradáveis e compatíveis com várias matrizes poliméricas, tornando-os adequados para embalagens sustentáveis e materiais compósitos.
— Além disso, os resíduos da extração de hidrocoloides podem ser refinados em nanocelulose, um material com elevada resistência à tração e biocompatibilidade, utilizado em eletrónica, papel transparente e dispositivos médicos.
Inovadores em Biomateriais de Algas que deve manter no radar:
Um exemplo de utilização industrial é a Biotic Labs (https://biotic-labs.com/), uma empresa israelita, e a BioLabMate (https://www.biolabmate.ca/), do Canadá, que estão a desenvolver bioplásticos a partir de algas e resíduos agrícolas, concebidos para modelos de economia circular.
A Algas Organics (https://algasorganics.com/), uma empresa dos EUA, está também a liderar a utilização de fibras derivadas de algas como alternativas sustentáveis a materiais de origem florestal. A empresa está a investir em várias marcas que desenvolvem fibras têxteis, substitutos de pasta kraft não lenhosa na produção de papel e nanocelulose para embalagens.
Por fim, a Seawood Materials (https://www.blueblocks.nl/portfolio/seawood/), dos Países Baixos, desenvolveu um material em placa 100% natural, compostável e sem químicos, que pode ser utilizado como material de construção, em produtos de design de interiores e em painéis acústicos de parede.
Estas aplicações são particularmente relevantes para biomassa arrojada, que é inadequada para uso alimentar, mas ideal para transformação industrial.

O que Está a Travar a Comercialização?
Apesar do potencial, persistem vários obstáculos.
Para começar, a variabilidade sazonal e composicional é uma barreira importante. As algas invasoras diferem na sua composição química consoante a espécie, localização, época do ano e até o estado fisiológico da biomassa, dificultando a normalização.
Em segundo lugar, os métodos de extração ambientalmente sustentáveis devem ser otimizados para escala industrial sem comprometer a integridade bioativa.
Devido à natureza inovadora e não normalizada destes desenvolvimentos tecnológicos, combinada com a atual baixa eficiência de extração e a necessidade imperativa de utilizar tecnologias verdes, os custos de produção continuam elevados. Como resultado, estes produtos derivados de algas ainda não são competitivos em preço face às alternativas convencionais, apesar de estas últimas serem frequentemente muito mais poluentes e assentes num modelo económico linear.
Igualmente importante é a educação do consumidor, uma vez que o conhecimento público sobre produtos à base de algas ainda é limitado e existe alguma resistência à sua adoção. Assim, a adoção pela indústria exige propostas de valor claras, preços competitivos, além de educação do consumidor, especialmente em regiões pouco familiarizadas com produtos à base de algas.
Uma barreira final é que os produtos destinados à agricultura, cosmética ou farmacêutica devem cumprir regras nacionais e internacionais, incluindo a legislação REACH e Novel Food, o que pode ser desafiante.
A comercialização da biomassa de algas invasoras não é apenas um esforço científico; é também um imperativo estratégico para a Economia Azul. Transformar ameaças ecológicas em ativos económicos promove a inovação, cria empregos e promove a sustentabilidade. Embora a investigação académica esteja a lançar as bases, o investimento contínuo, o apoio político e a colaboração intersetorial são essenciais para escalar estas soluções. A questão já não é se conseguimos comercializar algas invasoras, mas quão rápida e eficientemente o conseguimos fazer.
