À medida que a crise climática se intensifica, a saúde dos nossos oceanos — e, em particular, dos recifes de coral — torna-se mais crítica do que nunca. Nesta entrevista, Sam Teicher, Co-Fundador e Chief Reef Officer da Coral Vita, explora as inovações de ponta que estão a transformar a restauração marinha, o crescente potencial de impacto à escala global e a necessidade urgente de políticas, financiamento e colaboração mais inteligentes.
Que inovações científicas ou tecnológicas estão atualmente a transformar a forma como abordamos a restauração de ecossistemas em ambientes marinhos e costeiros?
Historicamente, a restauração terrestre tem estado muito mais avançada — pensemos, por exemplo, nos esforços de reflorestação que remontam a vários séculos. Em contraste, a restauração de ecossistemas marinhos e costeiros é uma área mais recente e menos desenvolvida do ponto de vista tecnológico. Mas isso está a mudar rapidamente.
Estamos agora a assistir a progressos rápidos graças a inovações como a Inteligência Artificial, a aprendizagem automática, a robótica, o ADN ambiental — ou eDNA — e a visão computacional. Estas tecnologias estão a ser utilizadas para automatizar a monitorização, avaliar a biodiversidade e melhorar os resultados da restauração.
Por exemplo, em vez de realizar transectos subaquáticos com lápis e papel, o eDNA permite avaliações rápidas das espécies presentes. Sistemas de câmaras e mosaicos fotográficos podem gerar reconstruções 3D de áreas de recife, permitindo às equipas acompanhar alterações ao longo do tempo com grande precisão.
Na Coral Vita, desenvolvemos também a nossa própria suite tecnológica proprietária, chamada Brain Coral. Esta combina aprendizagem automática com visão computacional para automatizar a monitorização do crescimento dos corais. Em vez de fotografar e medir manualmente cada coral, o sistema identifica quais estão a crescer mais rapidamente ou quais são mais resilientes a fatores de stress.
Isto não só melhora os resultados da restauração, como também reduz custos e aumenta a escalabilidade. Estamos agora a licenciar este sistema a outras organizações.
Em termos de métodos biológicos, utilizamos técnicas open-source como a microfragmentação e a evolução assistida. Estas ajudam-nos a fazer crescer corais mais rapidamente e a torná-los mais resistentes às ameaças climáticas — algo crucial para aumentar o impacto à escala necessária.
Que subáreas da restauração considera terem maior potencial de comercialização e escala — e porquê?
A restauração de recifes de coral é, naturalmente, o nosso foco, e acredito que tem um enorme potencial de comercialização devido ao valor dos recifes, tanto ecológico como económico. Estes ecossistemas apoiam mil milhões de pessoas, abrigam 25% da vida marinha, protegem zonas costeiras, sustentam pescas e geram, segundo algumas estimativas, até 10 biliões de dólares por ano.
O que distingue a Coral Vita é o nosso modelo de negócio. A maioria dos projetos de restauração de corais é conduzida por ONG ou institutos de investigação dependentes de donativos e subvenções. Nós somos uma empresa com fins lucrativos orientada por missão, o que nos permite aceder a diferentes fontes de financiamento. Resorts, governos, seguradoras e promotores imobiliários pagam-nos para restaurar os recifes dos quais dependem.
As nossas explorações de corais em terra funcionam como fábricas de corais: produzem, em escala, corais diversos e resilientes ao clima, ao mesmo tempo que funcionam como centros educativos e atrações turísticas. Isto gera receita, promove o desenvolvimento de competências e cria benefícios para as comunidades. É um modelo que acreditamos ser escalável e replicável a nível global.
Na sua experiência, quais são as barreiras mais urgentes — técnicas, regulatórias, financeiras ou sociais — que atualmente limitam os esforços de restauração em grande escala?
Existem vários desafios importantes.
Em primeiro lugar, as barreiras regulatórias. Cada país com recifes de coral tem as suas próprias regras e processos de licenciamento. Muitas vezes, as autoridades locais não dispõem da especialização ou da capacidade necessárias para avaliar eficazmente projetos de restauração. É por isso que trabalhamos de perto com os governos, construindo relações que permitam simplificar aprovações, garantindo simultaneamente benefícios para as comunidades e envolvimento local a longo prazo.
Em segundo lugar, as barreiras financeiras. Embora estejam a surgir créditos de biodiversidade e obrigações azuis, a natureza continua, em grande medida, ausente da contabilidade financeira global. Tem havido progressos, como a Lei do Restauro da Natureza da União Europeia e o Protocolo de Montreal-Kunming, mas precisamos de mecanismos que financiem a biodiversidade em escala.
Seguros para corais, swaps de dívida por natureza e investimentos positivos para a natureza são soluções promissoras, mas precisam de avançar mais rapidamente.
Existe também uma enorme lacuna de financiamento para inovadores em fases iniciais. Muitas ideias excelentes acabam por desaparecer por falta de apoios entre 5.000 e 100.000 dólares. Existem grandes fundos, mas falta financiamento early-stage — e esse financiamento é essencial.
Por fim, há o desafio da educação e da sensibilização. Desde proprietários de hotéis a investidores, nem todos compreendem o valor dos ecossistemas de recife ou a forma como a restauração pode contribuir para os seus resultados financeiros. Essa mudança de mentalidade é fundamental.
Como vê a contribuição da restauração de recifes de coral para objetivos mais amplos de adaptação climática e resiliência?
Os recifes funcionam como barreiras naturais. Protegem as zonas costeiras contra tempestades e erosão. Por isso, restaurá-los não é apenas uma vitória ecológica — é também uma forma de infraestrutura de adaptação climática.
Para além da proteção física, os recifes restaurados apoiam a segurança alimentar, os meios de subsistência e as economias ligadas ao turismo. A nossa abordagem passa por posicionar a restauração de recifes como uma solução win-win-win: resiliência ambiental, oportunidade económica e impacto social.
As comunidades ganham emprego e educação; os investidores obtêm valor a longo prazo; e os ecossistemas recuperam.
Com as políticas e o financiamento adequados, a restauração pode tornar-se uma componente fundamental das estratégias climáticas nacionais, especialmente em países costeiros e insulares.
Que tendências ou desenvolvimentos considera que irão moldar a restauração dos ecossistemas marinhos nos próximos 5 a 10 anos — tanto em termos de inovação como de financiamento?
Há algumas grandes mudanças que espero — e acredito — que venham a acontecer.
Os governos estarão mais bem preparados e capacitados para apoiar bons projetos de restauração. Os tempos de aprovação serão reduzidos e as políticas evoluirão para permitir uma ação mais atempada.
A inovação financeira irá amadurecer. Instrumentos de financiamento da conservação, como créditos de biodiversidade, seguros para corais e fundos climáticos, irão desbloquear capital para a restauração.
Os atores do setor privado — hotéis, portos, seguradoras — irão cada vez mais pagar para restaurar os ecossistemas que protegem os seus ativos.
Inovadores tecnológicos de diferentes setores trarão ferramentas transformadoras para a restauração oceânica, da Inteligência Artificial à robótica.
O capital de investimento irá crescer, não apenas através de fundos de milhares de milhões de dólares, mas também através de apoio a fases iniciais. Começámos a Coral Vita com uma bolsa de 1.000 dólares. Precisamos de mais caminhos como esse.
Mas também precisamos de capital paciente — pessoas dispostas a financiar trabalho de longo prazo e elevado impacto sem esperar retornos rápidos e exponenciais. Caso contrário, as melhores ideias poderão nunca sair do papel.
Com base em tudo o que viu, estamos mais perto dessa visão? A que distância estamos de a tornar realidade?
Diria que sou um realista otimista.
Sabemos o que é possível. Sabemos o que enfrentamos. A barreira não é o dinheiro — há muito capital no mundo. O verdadeiro problema é a vontade. Um grupo relativamente pequeno de líderes, instituições e investidores poderia alterar o sistema, se decidisse fazê-lo.
Vejo progressos. Existem ferramentas excelentes, pessoas brilhantes e ideias poderosas. Mas também há resistência, inércia e instituições que se movem lentamente.
Não precisamos de reinventar a roda. Precisamos apenas de nos alinhar melhor, financiar mais cedo, agir mais depressa e colaborar mais.
Por exemplo, nos Estados Unidos, existem 300 mil milhões de dólares parados em fundos aconselhados por doadores. Imagine-se se apenas uma pequena fração desse valor fosse direcionada para iniciativas de restauração oceânica em fases iniciais. O impacto poderia ser transformador.
