A Economia Azul tem um enorme potencial para gerar crescimento sustentável, mas concretizar essa promessa exige mais do que protocolos e boas intenções. Neste artigo, Manuel Melo analisa porque é que as formas tradicionais de cooperação muitas vezes não conseguem acompanhar a complexidade do setor. Dos atrasos regulatórios à evolução constante dos sinais de mercado, identifica as barreiras sistémicas que travam o progresso — e defende uma abordagem mais profunda, ágil e eficaz à colaboração, que vá além dos acordos formais.
A Economia Azul está cheia de potencial — mas também de fricção. Desde parques eólicos offshore flutuantes a infraestruturas de abastecimento de combustíveis verdes, ou projetos de aquacultura em terra, os setores envolvidos enfrentam frequentemente uma enorme incerteza tecnológica, regulatória e financeira.
Esta incerteza dificulta o planeamento estratégico de longo prazo. Os testes são lentos e dispendiosos. O licenciamento é imprevisível. As dinâmicas e expectativas de mercado estão em constante mudança. As cadeias de abastecimento enfrentam estrangulamentos frequentes e difíceis de antecipar. Como resultado, muitas empresas e instituições adotam uma postura de “esperar para ver”, adiando a inovação e o investimento de que o setor tanto necessita.
Neste contexto, a cooperação parece ser uma resposta óbvia. Mas, na prática, a forma como cooperamos fica muitas vezes aquém do necessário.
Quando os Protocolos se Transformam em Papelada
Os mecanismos formais de cooperação — memorandos de entendimento, protocolos, alianças estratégicas — estão por todo o lado na Economia Azul. Grandes centros de investigação podem ter mais de uma centena de parcerias em simultâneo, enquanto clusters como o Fórum Oceano facilitam regularmente a colaboração multilateral entre instituições.
À primeira vista, isto parece progresso. Mas muitos destes acordos não chegam a concretizar o seu verdadeiro potencial.
No seu relatório sobre a evolução das alianças, Madhok et al. (2015) referem taxas de insucesso em alianças estratégicas frequentemente superiores a 50%, enquanto Hughes e Weiss (2007) situam essas taxas entre os 60% e os 70%. Pode dizer-se que, em muitos casos, o sucesso de uma parceria é quase como lançar uma moeda ao ar. E essa não é uma probabilidade suficientemente sólida para que as empresas apostem seriamente na cooperação.
Em termos práticos, muitos stakeholders sentem que os protocolos se tornaram exercícios burocráticos, em vez de ferramentas para a criação de valor. Quando os resultados não se concretizam, os defensores internos da colaboração perdem confiança. Alguns tornam-se abertamente resistentes a futuras iniciativas de cooperação, encarando-as como simbólicas, demoradas e, em última análise, inúteis.
Esta desilusão é perigosa. Quando as pessoas responsáveis por promover a colaboração se tornam céticas, todo o ecossistema sai prejudicado.
O Problema de Base: Falham os Alicerces das Boas Parcerias
Porque é que tantas parcerias na Economia Azul ficam aquém das expectativas?
Embora cada colaboração falhada tenha a sua própria história — prazos demasiado ambiciosos, falta de liderança, entregáveis pouco claros — muitas falham por uma razão mais fundamental: não foram desenhadas com verdadeira cooperação em mente.
Autores como Dwyer et al. (1987) sublinharam a importância das fases de “consciencialização” e “exploração” nas parcerias. É nesta fase que as entidades devem avaliar não apenas o que querem fazer em conjunto, mas também se devem cooperar de todo — e de que forma.
Nesta fase inicial, dois conceitos muitas vezes negligenciados tornam-se essenciais: complementaridade e compatibilidade.
Complementaridade: O Motor do Valor Mútuo
A complementaridade refere-se ao grau em que os recursos, conhecimentos ou ativos de cada parceiro completam aquilo que falta ao outro. Não se trata de ter as mesmas ferramentas — trata-se de combinar forças diferentes para construir algo novo.
Por exemplo, Muthoka et al. (2019) encontraram evidências de que os recursos acumulados através de alianças estratégicas podem melhorar o desempenho de empresas com recursos limitados, no caso das PME industriais do Quénia.
Em contraste, alianças entre entidades com capacidades demasiado sobrepostas tendem a dissolver-se rapidamente. Os parceiros enfrentam dificuldades relacionadas com trocas de valor pouco claras e competição pelos mesmos papéis. O resultado? Desalinhamento, frustração e, eventualmente, afastamento.
Na Economia Azul, isto significa identificar claramente aquilo que cada parceiro traz para a mesa — tecnologias únicas, acesso ao mercado, conjuntos de dados, competências — e mapear de que forma essas peças podem encaixar antes de qualquer protocolo ser assinado.
Compatibilidade: A Cola Cultural Que Sustenta as Parcerias
Mesmo quando os recursos se alinham perfeitamente, a cooperação pode falhar se as culturas operacionais não forem compatíveis.
A compatibilidade refere-se ao grau de alinhamento entre as normas internas, estilos de comunicação e processos de decisão dos parceiros. É a diferença entre uma parceria que flui naturalmente e uma parceria que exige constantemente tradução — tanto em sentido figurado como literal.
Murray e Kotabe (2004) defendem que o alinhamento adequado entre os atributos e as formas de uma aliança melhora o seu desempenho. Por outras palavras, se as relações sociais influenciam as relações entre empresas ao promoverem confiança, então a capacidade de as fomentar torna-se um fator crítico de sucesso para a cooperação interempresarial.
Pelo contrário, o desalinhamento cultural aumenta os custos de coordenação e abranda a execução. Num ecossistema tão complexo e incerto como o da Economia Azul, estes atrasos podem ser fatais.
O Caminho a Seguir: Cooperação Mais Inteligente, Não Apenas Mais Cooperação
A conclusão não é que os protocolos sejam inúteis. É que são, demasiadas vezes, utilizados sem o trabalho de base necessário para os tornar eficazes.
Em vez de acelerar a formalização da cooperação, as entidades devem investir tempo na avaliação da complementaridade e da compatibilidade — os dois pilares de uma colaboração sustentável. Esta análise inicial ajuda a evitar a desilusão que ameaça toda a cultura cooperativa.
Porque o custo do fracasso não é apenas uma oportunidade perdida. É também a erosão da confiança. E a confiança é a moeda mais valiosa — e mais frágil — de um ecossistema emergente.
A Economia Azul não precisa de mais protocolos. Precisa de melhores protocolos.
