À medida que a sustentabilidade se torna uma prioridade global, a internacionalização está a emergir como uma via estratégica para construir universidades resilientes e inovadoras. Neste artigo, Alexandra Teodósio, Vice-Reitora para a Internacionalização e Desenvolvimento Sustentável da Universidade do Algarve, explora de que forma as parcerias globais, a colaboração interdisciplinar e as oportunidades inclusivas podem impulsionar o impacto local e global. Como pode a internacionalização reforçar a resiliência, impulsionar a inovação e promover a equidade no ensino superior?
A internacionalização é uma característica intrínseca de qualquer instituição de ensino superior devido à sua natureza universal. É mais do que mobilidade ou reputação académica — trata-se de construir resiliência, acelerar a inovação, promover sociedades inclusivas e gerar impacto global.
Na Universidade do Algarve (UAlg), a internacionalização está profundamente integrada na nossa missão e alinhada com a Agenda 2030 das Nações Unidas, particularmente através de iniciativas ligadas ao crescimento azul sustentável a nível regional e internacional.
Agora mais do que nunca, a sociedade e os decisores políticos devem apoiar-se na investigação interdisciplinar para tomar ações sustentáveis para o futuro de Portugal, da Europa e do nosso planeta.
A partir da experiência da UAlg, podemos identificar 3 lições-chave que podem inspirar outras universidades, decisores políticos e empresas que procuram combinar parcerias internacionais com impacto local.
Lição 1: A internacionalização constrói resiliência
Desafios globais, como as alterações climáticas, pandemias, insegurança alimentar e conflitos geopolíticos, demonstraram que nenhuma instituição ou região pode atuar de forma isolada. A integração em redes internacionais fiáveis reforça a mudança institucional e societal.
Através de redes como a SEA-EU (Universidade Europeia dos Mares), a UAlg expandiu a cooperação na Europa, África, Américas e Ásia — ligando-se a mais de 40 parceiros que trabalham em temas marinhos e marítimos. Esta colaboração permitiu o desenvolvimento de graus conjuntos internacionais e programas de liderança, tais como:
- Uma Licenciatura em Economia Azul Sustentável (SeaBluE);
- Um Mestrado em Gestão Portuária e Logística (MIPMAL-SEA-EU).
Estes programas são desenhados com metodologias baseadas em desafios, preparando os estudantes para atuar em ambientes incertos e complexos.
Em última análise, a internacionalização contribui não apenas para a força institucional, mas também para formar graduados mais adaptáveis e globalmente conscientes — apoiando a resiliência a nível societal.
Lição 2: A internacionalização acelera a inovação local
As parcerias para além da academia criam um terreno fértil para a inovação. Na UAlg, a cooperação internacional abriu novas oportunidades, aumentando o acesso a conhecimento especializado diverso, financiamento e perspetivas — permitindo soluções mais rápidas e com maior impacto.
Alguns exemplos incluem:
- Um novo hub de inovação interdisciplinar, com abertura prevista para 2026 no porto de Olhão, irá reunir estudantes, investigadores, startups e municípios para codesenhar soluções para economias costeiras sustentáveis.
- Living labs em todo o Algarve — desde as salinas de Castro Marim ao porto de Sagres — permitem aprendizagem prática e coprodução de conhecimento entre estudantes, cientistas, pescadores, autoridades portuárias e produtores artesanais.
- Uma embarcação-laboratório flutuante permite aos estudantes monitorizar e testar diretamente soluções baseadas na natureza em ecossistemas estuarinos e costeiros.
Estes exemplos mostram como a internacionalização pode ajudar a traduzir conhecimento em ação ao nível local — não apenas através de financiamento e infraestruturas, mas ativando o talento e o conhecimento regionais ao serviço de objetivos partilhados de sustentabilidade.
Lição 3: A internacionalização promove investigadores em início de carreira, inclusão e equidade
A sustentabilidade também significa garantir que o ensino superior é acessível a todos, o ODS mais relevante — Não Deixar Ninguém para Trás — especialmente aqueles em contextos frágeis, afetados por conflitos ou marginalizados.
A estratégia da UAlg coloca a inclusão no centro da sua internacionalização através do apoio a jovens investigadores para responderem a desafios locais de sustentabilidade nas suas próprias regiões:
- Desde 2022, foram abertas mais de 120 posições de doutoramento para países africanos de língua portuguesa e Timor-Leste, com foco na capacitação em regiões costeiras e sustentabilidade (CEMAR- Ciência LP UNESCO).
- Através de novas parcerias, a UAlg está a lançar bolsas para estudantes provenientes de zonas afetadas por conflitos, como a Síria, a Ucrânia e a Palestina.
- Plataformas de acesso aberto codesenvolvidas com outras universidades oferecem formação em aquacultura, empreendedorismo e propriedade intelectual — expandindo oportunidades para além da região do Algarve (BLUE ROUTE2030 e SHEs – My Sustainable Future).
Estes esforços mostram que a internacionalização pode atuar como uma força de inclusão, capacitação e desenvolvimento regional, ao mesmo tempo que apoia a capacitação global para transições de sustentabilidade.
Recomendações
A experiência da Universidade do Algarve mostra que a internacionalização, quando estrategicamente alinhada com a sustentabilidade, pode transformar instituições em agentes poderosos de transformação local e global — melhorando, como resultado, estratégias inovadoras de aprendizagem e resultados de investigação.
Demasiadas vezes, a internacionalização é reduzida a uma checklist de programas de mobilidade e presença em feiras internacionais, quando, na verdade, se trata de construir pontes: entre regiões, entre disciplinas e, sobretudo, entre gerações.
Para replicar e expandir este impacto:
- As universidades devem reforçar a internacionalização nas suas missões centrais — não apenas como um gabinete, mas como um motor de resiliência, inovação e responsabilidade social. Nesse caso, podemos criar um futuro onde seja possível inovar a educação e onde a investigação impulsione o bem-estar das pessoas, a resiliência das comunidades e a natureza.
- Os decisores políticos devem apoiar consórcios internacionais de longo prazo com legislação adequada e mecanismos de financiamento que liguem academia, indústria e comunidades locais, garantindo que o conhecimento flui em ambos os sentidos — do global para o local.
- As empresas devem tirar partido das redes académicas para aceder a talento, investigação coproduzida e espaços colaborativos que acelerem o desenvolvimento de soluções sustentáveis com impacto nas comunidades locais e na saúde do nosso planeta azul.
