Para além da produtividade: a próxima geração de ingredientes para aquacultura será escolhida pela sua resiliência

Ricardo Calado
Ricardo Calado Coordinating Researcher at ECOMARE & CESAM & DBIO, University of Aveiro

ARTIGO

Etiquetas: #alimentação aquícola #alterações climáticas #anfípodes marinhos #aquacultura sustentável #bioeconomia circular #biomassa vegetal #DHA #Economia Circular #EPA #ingredientes para aquacultura #LC-PUFA #ómega-3 #PUFApods #resiliência #Sustentabilidade #valorização de subprodutos

À medida que os sistemas de aquacultura enfrentam uma pressão crescente para se tornarem mais sustentáveis e resilientes, a próxima geração de ingredientes para alimentação aquícola terá de responder a desafios que vão além do valor nutricional e da eficiência produtiva. Neste artigo, o projeto PUFApods, desenvolvido no CEPAM-ECOMARE da Universidade de Aveiro, em colaboração com parceiros nacionais e internacionais, explora o potencial dos anfípodes marinhos como fonte sustentável de ácidos gordos ómega-3 de cadeia longa, utilizando subprodutos vegetais como alimento. A investigação evidencia não só a capacidade destes organismos para transformar biomassa subvalorizada em recursos nutricionais de elevado valor, mas também a importância da sua resiliência fisiológica num futuro marcado por alterações de temperatura, salinidade e outras pressões ambientais, apontando para uma nova geração de ingredientes para aquacultura pensados não apenas para a produtividade, mas também para a resiliência.

Durante décadas, a inovação na aquacultura centrou-se sobretudo no aumento da produtividade e na otimização dos custos de produção. Hoje, porém, o contexto mudou. As alterações climáticas, a crescente pressão sobre os recursos marinhos e a necessidade de tornar os sistemas alimentares mais circulares e resilientes estão a redefinir os critérios pelos quais avaliamos os ingredientes utilizados na alimentação das espécies produzidas em aquacultura. Já não basta encontrar alternativas nutricionalmente equivalentes aos ingredientes tradicionais. As novas soluções terão igualmente de demonstrar capacidade para responder a ambientes de produção cada vez mais variáveis, mantendo o seu desempenho perante oscilações de temperatura, salinidade e outros fatores ambientais.  

Face a esta realidade, a resiliência a eventos ambientais extremos tornou-se um atributo tão importante quanto o valor nutricional. Esta mudança é particularmente evidente no caso do óleo de peixe, um recurso cuja disponibilidade enfrenta limitações crescentes à escala global devido às alterações climáticas que impactam o oceano e cujo conteúdo em ácidos gordos ómega-3 de cadeia longa (LC-PUFA), tais como o EPA e o DHA, que são essenciais para o crescimento e desenvolvimento saudável de diversas espécies marinhas produzidas em aquacultura. Diversificar as fontes destes nutrientes é hoje um dos principais desafios para o desenvolvimento de uma aquacultura sustentável. Neste contexto, soluções inspiradas nos princípios da bioeconomia circular começam a ganhar relevância. Em vez de depender exclusivamente de recursos marinhos, procura-se valorizar subprodutos da indústria alimentar e convertê-los em ingredientes de elevado valor acrescentado através de organismos capazes de realizar essa transformação nutricional. 

É neste enquadramento que surge o projeto PUFApods, desenvolvido no CEPAM-ECOMARE da Universidade de Aveiro, em colaboração com parceiros nacionais e internacionais. O projeto explora o potencial dos anfípodes marinhos como fonte sustentável de LC-PUFA para a aquacultura, utilizando como alimento coprodutos vegetais, tais como cascas de batata, folhas de tomateiro, ervilhas, pimentos, entre outros. Os resultados mostram que estes organismos conseguem transformar biomassa vegetal, que não contém naturalmente estas moléculas, em biomassa animal rica em nutrientes essenciais, incluindo os ómega-3 EPA e DHA. 

Os resultados alcançados no âmbito do projeto PUFApods mostram também que, para que estas soluções sejam viáveis à escala comercial, é indispensável compreender também a sua capacidade de adaptação às condições ambientais que caracterizarão a aquacultura do futuro. Os ensaios realizados evidenciaram que diferentes espécies de anfípodes apresentam respostas distintas às alterações de temperatura e salinidade, refletindo adaptações específicas aos seus habitats naturais. 

 Entre elas, a espécie Gammarus locusta destacou-se pela sua elevada plasticidade fisiológica, demonstrando uma capacidade particularmente interessante para tolerar condições ambientais variáveis, uma característica cada vez mais relevante num cenário de alterações climáticas.  

Estes organismos funcionam, assim, como pequenos biorreatores naturais, capazes de transformar subprodutos vegetais em ingredientes de elevado valor nutricional e de aproximar de forma mais sustentável as cadeias de produção alimentar terrestres e marinhas. 

No futuro, a seleção de novos ingredientes para aquacultura dificilmente será feita apenas com base no seu perfil nutricional ou na eficiência produtiva, a capacidade de manter um desempenho consistente perante condições ambientais mais extremas passará também a ser um critério determinante para a construção de cadeias de valor resilientes.  

Num contexto em que a segurança alimentar depende cada vez mais da capacidade de produzir de forma sustentável e resiliente, a inovação deixará de ser medida apenas pelo desempenho tecnológico de uma solução. Será igualmente avaliada pela forma como essa solução responde aos desafios ambientais que moldarão a aquacultura nas próximas décadas.  

O projeto PUFApods constitui um exemplo concreto desta evolução. Mais do que desenvolver um novo ingrediente para alimentação aquícola, mostra que a próxima geração de soluções para a aquacultura será escolhida não apenas pelo seu desempenho nutricional e produtivo, mas também pela sua capacidade de responder aos desafios ambientais do futuro. 

Para saber mais sobre o projeto PUFApods: 

https://doi.org/10.54499/2022.01620.PTDC