O Futuro Marítimo da Europa: Transformar a Transição numa Vantagem Competitiva

Fabrice Maire
Fabrice Maire Chairman of the European Network of Maritime Clusters

ARTIGO

Etiquetas: #Descarbonização Marítima #Digitalização Portuária #Gémeos Digitais #Interoperabilidade

Os portos e o setor do transporte marítimo europeus estão a entrar num período de profunda transformação. A descarbonização, a digitalização, a incerteza geopolítica, a evolução das cadeias de abastecimento e a crescente concorrência internacional estão a reformular a forma como o transporte marítimo opera — e o papel que os portos desempenham no contexto mais amplo da economia.

Na perspetiva da Rede Europeia de Clusters Marítimos (ENMC), esta transformação não deve ser encarada apenas sob a ótica do cumprimento regulamentar ou do risco. Representa também uma oportunidade para reforçar a posição da Europa enquanto potência marítima global, desde que essa ambição se traduza em investimento, inovação e ação coordenados.

Os portos e o transporte marítimo continuam a ser fundamentais para a resiliência económica da Europa. Mas o sistema marítimo do futuro terá de fazer mais do que transportar mercadorias de forma eficiente. Terá de interligar energia, indústria, logística, dados e infraestruturas de formas cada vez mais integradas.

De melhorias incrementais à transformação sistémica

Estão a ocorrer simultaneamente várias transições de grande dimensão. A descarbonização está a alterar a economia do transporte marítimo, enquanto as tecnologias digitais estão a redefinir a forma como os navios, os terminais, os portos e as redes do hinterland interagem. Ao mesmo tempo, os desenvolvimentos geopolíticos estão a colocar maior ênfase na resiliência, nas infraestruturas estratégicas e na capacidade de responder rapidamente a situações de disrupção.

O resultado é uma mudança da otimização incremental para a transformação sistémica.

Para as empresas de transporte marítimo e os portos, isto significa tomar decisões de longo prazo num contexto em que as tecnologias, os combustíveis e os quadros regulamentares continuam em evolução. As decisões de investimento devem, por isso, equilibrar as necessidades operacionais imediatas com a flexibilidade necessária para se adaptarem a um panorama marítimo em rápida transformação.

Isto é particularmente importante para a Europa, que compete com regiões frequentemente capazes de mobilizar capital, infraestruturas e capacidade industrial com maior rapidez. A liderança europeia dependerá não só da existência de estratégias ambiciosas, mas também da melhoria da rapidez e da coordenação da sua implementação.

A digitalização como infraestrutura do sistema marítimo

A digitalização está a tornar-se cada vez mais uma componente fundamental da competitividade marítima. A inteligência artificial, a automação, a manutenção preditiva, os gémeos digitais e os sistemas de comunidade portuária têm potencial para melhorar a eficiência e a fiabilidade.

No entanto, os maiores benefícios não resultarão das tecnologias individuais, mas da sua capacidade para funcionarem em conjunto.

A interoperabilidade deve, por isso, tornar-se uma prioridade central. Os dados precisam de circular de forma mais eficaz entre navios e portos, terminais e operadores do hinterland, prestadores de serviços logísticos e proprietários das cargas, bem como através de fronteiras e sistemas administrativos. Quando a informação pode ser partilhada de forma segura e eficiente, as decisões podem ser tomadas mais cedo, o congestionamento pode ser reduzido e os recursos podem ser utilizados de forma mais eficaz.

A digitalização pode também apoiar a descarbonização. Dados de melhor qualidade podem otimizar as velocidades e rotas dos navios, a atribuição de postos de acostagem, os fluxos de carga e o consumo de energia. Neste sentido, as transições digital e ecológica não devem ser consideradas agendas separadas: estão cada vez mais interligadas.

O desafio, contudo, não é exclusivamente tecnológico. Criar confiança na partilha de dados, estabelecer normas comuns, proteger a cibersegurança e alinhar interesses comerciais são aspetos igualmente importantes. A Europa tem a oportunidade de transformar a diversidade dos seus ecossistemas marítimos numa vantagem — mas apenas se a fragmentação não impedir a ligação entre esses ecossistemas.

A descarbonização exige um ecossistema

O caminho para um setor marítimo com menores emissões de carbono não será definido por um único combustível ou tecnologia. Diferentes tipos de navios, rotas e perfis operacionais exigirão soluções distintas.

Os combustíveis alternativos e os vetores energéticos só se tornarão viáveis em grande escala quando as infraestruturas que os suportam se desenvolverem em paralelo com a procura. Consequentemente, os portos desempenharão um papel cada vez mais importante enquanto polos energéticos, disponibilizando ou facilitando a eletrificação dos navios em porto, o abastecimento de combustíveis alternativos, o armazenamento, as ligações à rede elétrica e, potencialmente, as ligações a sistemas energéticos offshore.

Isto exige um investimento significativo e, sobretudo, coordenação. Os portos não podem desenvolver infraestruturas energéticas de forma isolada. Necessitam de visibilidade sobre a procura futura, condições regulamentares previsíveis e alinhamento com os desenvolvimentos regionais e internacionais.

A coerência regulamentar será particularmente importante para um setor que é, por natureza, global. As iniciativas europeias precisam de interagir eficazmente com os quadros internacionais, incluindo os desenvolvidos através da Organização Marítima Internacional. Uma maior previsibilidade ajudará os investidores e as empresas a tomar decisões com maior confiança no longo prazo.

Ao mesmo tempo, a descarbonização deve ser encarada como uma oportunidade industrial. A Europa dispõe de capacidades significativas nas áreas da tecnologia marítima, engenharia, construção naval, investigação e financiamento. Se forem criadas as condições adequadas, a transição poderá gerar novas cadeias de valor, modelos de negócio e mercados, em vez de simplesmente acrescentar custos aos já existentes.

Os portos estão a tornar-se plataformas, não apenas nós

Talvez uma das mudanças mais importantes seja a expansão do papel dos próprios portos.

O porto do futuro funcionará cada vez mais como uma plataforma logística, energética e industrial. A par das atividades tradicionais de movimentação de cargas, os portos poderão acolher infraestruturas para combustíveis alternativos, eletrificação dos navios em porto, armazenamento de energia, atividades de adaptação e reparação de embarcações, serviços de economia circular, produção avançada e infraestruturas de teste para a inovação.

Isto cria novas oportunidades, mas também uma maior complexidade. Os portos devem gerir simultaneamente as limitações de espaço, as exigências ambientais, as relações urbanas, as necessidades energéticas, o desenvolvimento industrial e as necessidades de cadeias de abastecimento cada vez mais interligadas.

Nenhuma organização consegue responder sozinha a estes desafios. As autoridades públicas, os operadores portuários, as empresas de transporte marítimo, os fornecedores de energia, as empresas tecnológicas, as instituições financeiras, as organizações de investigação e as PME têm, todas elas, um papel a desempenhar.

Isto torna a colaboração um fator de competitividade cada vez mais importante.

Da inovação à implementação

À Europa não faltam estratégias marítimas, projetos de investigação ou tecnologias inovadoras. O desafio mais difícil é passar dos projetos-piloto para uma implementação generalizada.

Isto exige ligações mais fortes entre a investigação e a adoção pelo mercado, mais oportunidades para testar soluções em condições reais, mecanismos de financiamento capazes de apoiar projetos pioneiros e uma força de trabalho dotada de novas competências digitais e relacionadas com a energia.

Os clusters podem contribuir para este processo, ligando partes interessadas que não trabalhariam necessariamente em conjunto, identificando capacidades complementares e ajudando a transformar iniciativas individuais em projetos colaborativos. Num ecossistema marítimo fragmentado, a capacidade de criar ligações pode, por si só, tornar-se uma fonte de competitividade.

A questão do investimento é, por isso, mais ampla do que simplesmente perguntar quais as tecnologias que terão sucesso. Trata-se também de criar as condições necessárias para que tecnologias promissoras possam ganhar escala.

Uma oportunidade europeia

A próxima década testará a capacidade da Europa para conciliar a ambição climática com a competitividade económica.

Os ecossistemas marítimos mais fortes serão aqueles que conseguirem ligar a descarbonização à digitalização, as infraestruturas à inovação e as políticas públicas ao investimento privado. Serão capazes de antecipar a mudança, mantendo simultaneamente flexibilidade suficiente para se adaptarem à evolução das tecnologias e dos mercados.

Para a Europa, a oportunidade é significativa. Um sistema marítimo mais limpo, inteligente e resiliente pode reforçar a competitividade das empresas europeias, criando simultaneamente novas oportunidades industriais e de investimento em toda a economia azul.

A transição já está em curso. A questão é saber com que rapidez a Europa conseguirá transformá-la numa vantagem competitiva coordenada.

Para a ENMC e os seus membros, a prioridade é ajudar a estabelecer essa ligação: interligar clusters e regiões marítimas, partilhar conhecimento prático, incentivar a colaboração e ajudar ideias inovadoras a avançar para a implementação.

O futuro marítimo da Europa não será definido por uma tecnologia, um porto ou uma política. Será moldado pela força do ecossistema que construirmos em torno deles.