Como vê a evolução dos portos portugueses enquanto plataformas cada vez mais integradas com cadeias logísticas, corredores de transporte e economias regionais?
Os portos deixaram há muito de ser apenas pontos de entrada e saída de mercadorias. São hoje plataformas fundamentais de articulação entre diferentes modos de transporte, cadeias logísticas, indústria, comércio e territórios.
No caso nacional, esta evolução é particularmente relevante. A nossa posição atlântica constitui uma vantagem importante para reforçar a ligação entre a Europa, os mercados internacionais e as cadeias logísticas globais. Mas a localização, por si só, não chega. É preciso transformar essa vantagem geográfica em competitividade, através de boas ligações, eficiência, fiabilidade e capacidade de resposta.
É também importante olhar para a relação dos portos com as economias regionais. Leixões, por exemplo, não é uma infraestrutura isolada. Está profundamente ligado ao tecido empresarial e industrial da região Norte, ao sistema logístico nacional e aos corredores europeus de transporte. O mesmo acontece, naturalmente com características próprias, com o Porto de Viana do Castelo e com a Via Navegável do Douro.
Vejo, por isso, um futuro em que os portos estarão cada vez mais integrados no território e nas cadeias de valor. A sua competitividade não se mede apenas pelo que acontece dentro das suas instalações, mas também pela qualidade das ligações que conseguem assegurar ao hinterland e pela forma como se articulam com a economia envolvente.
Que tendências poderão ser mais relevantes para reforçar a eficiência e resiliência das operações portuárias, em particular ao nível da intermodalidade, digitalização, gestão de fluxos e ligação ao hinterland?
Há várias tendências que considero determinantes e que estão, naturalmente, muito interligadas. Desde logo, a intermodalidade. A capacidade de articular de forma eficiente o transporte marítimo com a ferrovia e a rodovia será cada vez mais importante. Não basta ter boas infraestruturas portuárias; é necessário garantir que a mercadoria consegue chegar ao seu destino de forma previsível, eficiente e sustentável.
Neste domínio, a APDL dispõe de uma rede de terminais ferroviários de mercadorias, estrategicamente localizados e articulados com a Rede Ferroviária Nacional e com os principais terminais marítimos da fachada atlântica. Esta infraestrutura contribui para um sistema logístico multimodal mais eficiente e robusto, reforçando a ligação dos portos ao hinterland e contribuindo, simultaneamente, para os objetivos de descarbonização e transição energética.
A digitalização é outra área incontornável. Os portos estão a tornar-se verdadeiros ecossistemas de dados, onde a partilha de informação entre operadores, autoridades, transportadores e outros intervenientes pode ajudar a antecipar fluxos, reduzir tempos de espera, melhorar a utilização dos recursos e aumentar a segurança.
Também a utilização de dados, automação e inteligência artificial deverá ter um papel crescente na gestão das operações. A possibilidade de antecipar necessidades e responder de forma mais rápida à variabilidade da procura ou a situações de perturbação das cadeias logísticas será cada vez mais importante.
E a resiliência ganhou, nos últimos anos, uma importância que talvez não estivesse tão presente na agenda há uma década. As cadeias de abastecimento estão expostas a perturbações de natureza geopolítica, económica e climática. Os portos têm, por isso, de estar preparados não apenas para funcionar bem em condições normais, mas também para responder e recuperar rapidamente quando surgem situações de disrupção.
É neste contexto que a ligação ao hinterland assume particular importância. Quanto mais diversificadas e eficientes forem as opções de transporte e melhor articuladas estiverem as diferentes infraestruturas, maior será a capacidade de todo o sistema logístico para responder às mudanças e manter a continuidade das cadeias de abastecimento.
De que forma a inovação pode apoiar uma maior articulação entre atividade portuária, indústria, território e sustentabilidade ambiental?
A inovação deve estar ao serviço de problemas concretos e da criação de valor. No caso dos portos, temos uma vantagem particular: são infraestruturas reais, com operações complexas e uma ligação direta à indústria, à logística, às cidades e ao ambiente. Isso faz dos portos espaços muito interessantes para testar, demonstrar e validar novas soluções em condições reais.
É precisamente aqui que iniciativas como a Rede Hub Azul Portugal podem desempenhar um papel muito relevante. Aproximar empresas, centros de conhecimento, entidades de formação, investidores e infraestruturas permite criar pontes entre quem desenvolve conhecimento e tecnologia e quem tem problemas concretos para resolver.
Na APDL acreditamos que os portos devem assumir-se cada vez mais como plataformas abertas à inovação, criando condições para testar, validar e acelerar novas tecnologias e modelos de negócio aplicáveis à economia do mar.
Esta ligação é particularmente importante quando falamos de sustentabilidade. A descarbonização das operações portuárias, a eficiência energética, a utilização de energias renováveis, a redução de emissões e a adaptação às alterações climáticas exigem tecnologia e inovação, mas exigem também novas formas de trabalhar e de colaborar.
O objetivo deve ser precisamente esse: fazer com que competitividade e sustentabilidade não sejam vistas como objetivos contraditórios. A inovação pode ajudar-nos a encontrar soluções que permitam desenvolver a atividade portuária, gerar valor para a economia e, simultaneamente, reduzir a sua pegada ambiental.
Olhando para os próximos anos, que áreas considera prioritárias para que portos como Leixões, Viana do Castelo e a Via Navegável do Douro possam reforçar a sua competitividade e relevância no contexto nacional, europeu e atlântico?
Se tivesse de destacar algumas prioridades para os próximos anos, colocaria claramente a conectividade, a eficiência, a digitalização, a sustentabilidade e a inovação no centro dessa agenda.
O Plano Estratégico do Porto de Leixões 2025 - 2035 é um instrumento essencial para preparar o futuro desta infraestrutura, garantindo que continuará a responder às exigências das cadeias logísticas internacionais, à evolução dos mercados e aos desafios da transição energética e digital.
Este Plano reforça a ambição nacional de dotar o sistema portuário de maior competitividade, sustentabilidade e integração multimodal, alinhando-se com a estratégia nacional Portos 5+, que visa promover uma visão comum e planos de investimento estratégico para todo o sistema portuário português.
Neste âmbito, uma das principais ações previstas é a Ampliação do Terminal de Contentores Norte, um projeto estruturante que visa reforçar a capacidade, eficiência e competitividade do porto, preparando-o para responder aos desafios atuais e futuros do transporte marítimo e da logística internacional.
Este investimento permitirá acompanhar a evolução da dimensão dos navios, melhorar a fluidez das operações portuárias e consolidar o papel de Leixões como uma infraestrutura estratégica ao serviço da economia regional e nacional.
Em Viana do Castelo, importa continuar a valorizar a relação entre o porto, a indústria e o território, aproveitando as oportunidades que se estão a abrir nas áreas industrial, das energias renováveis e da economia azul.
Na Via Navegável do Douro, existe uma dimensão adicional muito relevante: a articulação entre transporte fluvial, turismo, território e valorização económica e ambiental do rio. O Douro tem características únicas e deve ser encarado de forma integrada, procurando tirar partido do seu potencial enquanto infraestrutura de mobilidade, atividade económica e valorização territorial.
Há, depois, uma prioridade que é transversal às três realidades: conhecimento e inovação. É aqui que iniciativas como a Rede Hub Azul Portugal podem fazer a diferença, aproximando infraestruturas, empresas, universidades, centros tecnológicos e investidores e criando condições para que boas ideias possam passar mais rapidamente do conhecimento para a aplicação.
A APDL quer contribuir para esse movimento, colocando Leixões, Viana do Castelo e o Douro ao serviço de uma visão integrada da economia azul nacional. Queremos que estas infraestruturas sejam não apenas pontos de passagem, mas também motores de inovação, competitividade e desenvolvimento sustentável, contribuindo para afirmar Portugal no contexto europeu e atlântico.
