O Futuro do Talento Marítimo: Competências para um Setor em Transformação

Vítor Franco Correia
Vítor Franco Correia Presidente da Escola Superior Náutica Infante D. Henrique

ARTIGO

Etiquetas: #Automação #Competências Marítimas #Digitalização #Formação Marítima #Inteligência Artificial

Quais considera serem as principais tendências que irão marcar a evolução do setor Shipping & Ports nos próximos anos, especialmente do ponto de vista das competências e da preparação dos profissionais do setor?

O setor marítimo-portuário está num período de transformação particularmente acelerada. Diria que existem cinco grandes tendências que estão a ocorrer e irão marcar os próximos anos:

(i) descarbonização;

(ii) digitalização;

(iii) automação;

(iv) crescente utilização de dados e inteligência artificial;

(v) reforço da segurança e da cibersegurança.

A particularidade deste período de transformação é que estas tendências não surgem isoladamente. Um navio será simultaneamente mais digital, mais automatizado e operado com sistemas energéticos mais complexos. Os portos serão cada vez mais plataformas logísticas digitais, energeticamente eficientes e integradas com outros modos de transporte. Isto significa que também os profissionais terão de combinar competências que tradicionalmente pertenciam a domínios diferentes.

Continuaremos naturalmente a precisar de excelentes marítimos, engenheiros, gestores portuários e profissionais de logística. Mas esses profissionais terão de compreender sistemas digitais, interpretar dados, interagir com inteligência artificial e sistemas automatizados e, simultaneamente, operar em segurança novas tecnologias energéticas.

Por isso, considero que o grande desafio não será substituir as competências marítimas tradicionais, mas acrescentar-lhes novas competências digitais, tecnológicas e ambientais.

Existe ainda outro elemento que considero essencial: preservar a capacidade de decisão humana. Quanto mais automatizados forem os sistemas, mais importante será formar profissionais capazes de compreender os seus limites, identificar situações anómalas e assumir a decisão quando a tecnologia falha.  O pensamento crítico será cada vez mais importante.

A transformação digital do shipping não elimina a necessidade de competências marítimas. Pelo contrário: exige profissionais ainda mais qualificados, capazes de combinar conhecimento do mar, engenharia, dados e tecnologia.

Como é que temas como digitalização, automação, descarbonização, segurança marítima e novos sistemas de gestão portuária estão a transformar os perfis profissionais necessários no transporte marítimo e nos portos?

Em vez de profissionais especializados num determinado equipamento ou processo, iremos necessitar progressivamente de profissionais capazes de compreender e gerir sistemas integrados.

Num navio moderno, um oficial não trabalha apenas com sistemas de navegação ou propulsão. Trabalha com sensores, sistemas de monitorização, sistemas integrados de controlo, comunicações digitais, manutenção preditiva e ferramentas de apoio à decisão. Cada vez mais terá também de compreender a lógica subjacente aos sistemas que utiliza e saber avaliar criticamente a informação que estes produzem.

A transição energética introduz uma dimensão adicional. A utilização de novos combustíveis, ou novas soluções energéticas, com diferentes características técnicas, riscos e procedimentos de segurança, exige novas competências no que se refere ao armazenamento, abastecimento, operação, manutenção e resposta a emergências.

O resultado é uma progressiva aproximação entre competências marítimas, engenharia, logística, energia e tecnologias digitais.

Ao mesmo tempo, considero muito importante evitar a ideia de que digitalizar significa retirar o fator humano das operações. Em sistemas complexos e críticos, a tecnologia deve aumentar a capacidade dos profissionais e não diminuir a sua capacidade de avaliar e decidir.

Que tecnologias ou áreas emergentes considera que devem começar a ganhar mais espaço na formação marítima e portuária?

Destacaria sete áreas que considero particularmente relevantes, sem uma ordem específica de importância:

A primeira é a utilização de dados. Navios e portos produzem hoje enormes quantidades de informação. Saber recolher, interpretar e transformar esses dados em decisões operacionais será uma competência transversal;

A segunda é a inteligência artificial. A IA tem um potencial de aplicação crescente na otimização de rotas, manutenção preditiva, eficiência energética, gestão portuária, previsão logística e apoio à decisão. O objetivo não deve ser formar todos os profissionais marítimos como especialistas em inteligência artificial, mas garantir que compreendem as suas possibilidades, limitações e riscos;

A terceira é a cibersegurança marítima. Navios e portos são infraestruturas cada vez mais interligadas. Isso aumenta extraordinariamente a eficiência, mas também aumenta a exposição a ameaças cibernéticas. No atual panorama geopolítico internacional o risco de ameaças cibernéticas cresceu muito. A cibersegurança deverá, por isso, tornar-se progressivamente uma competência transversal;

A quarta área são os combustíveis alternativos e novos sistemas energéticos. Metanol, amoníaco, hidrogénio, eletrificação, baterias e fuel cells exigirão formação específica, sobretudo nas áreas da segurança, operação e manutenção;

A quinta é a automação e os sistemas autónomos e remotamente operados. Mesmo que a evolução para navios totalmente autónomos não seja uma realidade próxima, os níveis de automação continuarão a aumentar e surgirão mais operações supervisionadas ou apoiadas a partir de terra;

A sexta é a simulação avançada, realidade virtual e digital twins. Estas tecnologias permitem reproduzir situações complexas ou de risco sem expor pessoas ou equipamentos, sendo particularmente importantes numa atividade em que a experiência operacional é determinante;

Finalmente, destacaria os sistemas inteligentes de gestão portuária e logística, incluindo otimização de escalas, integração porto-navio, gestão energética, smart ports e maior integração das cadeias logísticas.

Estas tecnologias devem, contudo, ser introduzidas na formação considerando a sua aplicação concreta.

Que desafios vê na ligação entre formação, empresas e inovação?

A tecnologia pode mudar em poucos meses, enquanto um curso superior é necessariamente concebido para vários anos e a regulamentação internacional exige processos de discussão, harmonização e aprovação ainda mais longos.

A formação inicial continuará a ser fundamental porque fornece bases científicas, técnicas e operacionais sólidas. Mas será cada vez menos possível considerar que a formação de um profissional termina quando recebe o diploma do curso superior.

Por isso, a resposta terá necessariamente de passar por uma combinação entre formação superior, formação especializada, microcredenciais e aprendizagem ao longo da vida.

A ligação às empresas é igualmente essencial. As empresas têm contacto imediato com novos equipamentos, tecnologias e problemas operacionais. As instituições de ensino possuem conhecimento, capacidade de investigação, laboratórios e possibilidade de experimentar soluções em ambiente de simulação cada vez mais próximo da realidade.

É também importante envolver empresas e instituições de formação numa fase precoce do desenvolvimento de novas tecnologias. Muitas vezes pensamos primeiro na tecnologia e apenas mais tarde perguntamos quem a vai operar. Num setor crítico como o marítimo, o fator humano deveria fazer parte do processo de inovação desde o início.

Olhando para os próximos anos, que papel podem ter instituições como a ENIDH e a rede Hub Azul?

Instituições como a ENIDH podem funcionar como uma ponte entre formação, investigação, tecnologia e operação marítima.

A ENIDH tem uma característica particularmente relevante: sendo uma instituição de ensino superior com uma missão única no país, com valências ao nível do ensino, formação e investigação aplicada ao setor, está simultaneamente próxima da formação profissional marítima e da realidade operacional do setor. Essa posição permite-nos identificar necessidades de competências, testar novas abordagens de formação, utilizar simulação avançada e colaborar com empresas na adaptação às novas tecnologias.

Vejo três grandes áreas de intervenção:

A primeira é naturalmente a preparação de talento, tanto através da formação inicial como da atualização permanente dos profissionais que já estão no mercado de trabalho.

A segunda é a experimentação e demonstração tecnológica. Simuladores, laboratórios e projetos colaborativos permitem simular em ambiente de realidade virtual, testar novas soluções, avaliar o seu impacto sobre as operações e preparar os profissionais antes de uma utilização em ambiente real.

A terceira é a inovação colaborativa. E aqui redes como o Hub Azul Portugal podem desempenhar um papel particularmente importante.

As instituições de ensino superior, os centros de investigação, os portos, as empresas marítimas, os armadores, as empresas tecnológicas e start-ups, possuem conhecimento e competências relevantes em diversas áreas. Muitas das vezes, o principal desafio não é criar mais conhecimento, mas ligar melhor o conhecimento existente aos problemas concretos da indústria.

O Hub Azul pode contribuir para essa aproximação, criando espaços onde empresas apresentam desafios, investigadores desenvolvem soluções, start-ups testam tecnologias e instituições de ensino transformam essa inovação em novas competências.

Esta articulação é especialmente importante num país como Portugal. Pela sua posição geográfica, pela dimensão do seu espaço marítimo, pela relevância dos seus portos e pela sua vocação atlântica, Portugal tem condições para se afirmar não apenas como utilizador de tecnologia marítima, mas também como local de desenvolvimento, teste e demonstração de novas soluções para o setor marítimo e portuário.

A ENIDH pretende contribuir para esse objetivo através daquilo que constitui a sua principal missão: preparar profissionais altamente qualificados para o setor marítimo-portuário e áreas afins da economia azul e, simultaneamente, aproximar conhecimento, talento, tecnologia e empresas.