À medida que a IA e a automação estão a transformar o transporte global, o setor marítimo entra numa era digital em que a cibersegurança e a eficiência orientada por dados são essenciais. Neste artigo, Ricardo Póvoa, Coordenador de Investigação na Escola Superior Náutica Infante D. Henrique (ENIDH), explora de que forma a tecnologia e a colaboração estão a redefinir o futuro de uma economia azul segura e inteligente. Como estão os setores marítimos a integrar a IA e a automação?
Quando Gary Kasparov derrotou o supercomputador Deep Blue da IBM em 1996, o mundo celebrou com alívio a superioridade da mente humana, mas tornou-se claro que a automação e a Inteligência Artificial (IA) teriam importância transversal no novo século. Em 1997, a celebração, porque os supercomputadores são criações humanas, antecedeu o medo da substituição. Em 2025, calculadoras e simuladores são ferramentas de eficiência na academia e produtividade na indústria. A IA é utilizada no desenho tecnológico, na análise de dados e na segurança. Porque não deveria sê-lo no shipping? É. A Force Technology tem soluções em desenho de casco, a Tecnoveritas em gestão de frotas e a Hapag-Lloyd em gémeos digitais.
Os Dois Pilares da Transformação Digital no Shipping
Para compreender a digitalização no shipping atualmente, é essencial considerar dois pilares interligados:
• Segurança
• Economia
Cibersegurança no Mar: Uma Prioridade Crescente para o Setor Marítimo
No que diz respeito à segurança, a Organização Marítima Internacional (IMO) colocou a cibersegurança como uma prioridade máxima desde 2017, um ano particularmente marcado por ataques ao setor.
De facto, em 2017, o Comité de Segurança Marítima publicou uma circular com orientações para a gestão do risco cibernético. Um documento que serviu de base para a publicação do livro sobre formação em sensibilização para a segurança para pessoal portuário com funções de segurança designadas (2018 IMO Model Course 3.24) e que passou por revisões consecutivas (a mais recente de abril de 2025), demonstrando uma verdadeira preocupação com esta questão.
Além disso, este documento inspirou uma resolução também em 2017, que colocou a cibersegurança como requisito obrigatório no Sistema de Gestão de Segurança do Código Internacional de Gestão da Segurança (ISM Code).
Assim, a IMO tem atribuído grande importância a este tema, sendo provável que a inclusão da cibersegurança em todos os IMO Model Courses aconteça em breve. É também plausível que surjam muito em breve certificações da Convenção Internacional sobre Normas de Formação, Certificação e Serviço de Quartos para Marítimos (STCW) aplicadas à cibersegurança, uma vez que a pirataria já não é apenas uma questão de grupos que entram em navios durante a noite: o perigo do ciberespaço é real e apresenta riscos potencialmente ainda maiores para tripulações e carga.
Eficiência Digital e Resiliência Económica: O Caso dos Portos Inteligentes
Economia e digitalização do setor marítimo são sinónimos. Não há economia sem o setor marítimo: trata-se do transporte de pessoas, bens, ativos, vidas e projetos de vida. A transição digital é hoje uma realidade inevitável, e o setor marítimo deve estar na linha da frente, não só porque é importante no shipping em geral, mas também, em particular, nas administrações portuárias. A digitalização segura de processos e procedimentos é fundamental para garantir eficiência e resiliência perante a instabilidade e responder rapidamente a desafios que normalmente afetam a gestão, a logística e o transporte.
Muito está a ser feito em Portugal. Um exemplo de referência é a Janela Única Logística, uma plataforma digital que centraliza processos desde a navegação ao registo portuário e ao transporte continental. Um enquadramento europeu integrado é essencial para o futuro da intermodalidade como paradigma central da cadeia de abastecimento global.
3 Tecnologias que Impulsionam o Futuro da Digitalização Marítima
O futuro da digitalização no setor marítimo deve considerar três linhas principais:
• Machine learning para maximizar eficiência e produtividade;
• Análise de dados e ciência de big data para apoio à decisão;
• Cibersegurança acima de tudo, uma vez que a segurança sempre foi a preocupação número um do ser humano.
Estudo de Caso: Monitraffic – Monitorização Mais Inteligente para Costas Mais Seguras
O Monitraffic, um projeto conjunto financiado pelo Fundo Azul, Instituto Superior Técnico, Escola Superior Náutica Infante D. Henrique e Xsealence, é um bom exemplo de integração das três linhas principais acima referidas.
O objetivo do Monitraffic era criar um sistema integrado para a caracterização, monitorização e vigilância do tráfego marítimo ao largo da costa continental portuguesa, incluindo em áreas portuárias, através do desenvolvimento de ferramentas para caracterizar rotas e perfis operacionais do tráfego marítimo, bem como para detetar automaticamente comportamentos anómalos de navios mercantes e embarcações de pesca. O sistema procurava fornecer informação sobre rotas típicas de navios para aumentar a segurança e a eficiência das operações marítimas atuais, permitir operações futuras com embarcações autónomas e disponibilizar alertas sobre situações anómalas para apoiar a monitorização e o controlo do tráfego marítimo costeiro e portuário.
A geração de bases de dados de embarcações e de históricos de desempenho e rotas vai além das soluções de monitorização convencionais, oferecendo desafios de segurança que exigem atenção e mitigação adequada.
Estudo de Caso: SEMS4USV – Gestão Inteligente de Energia para Embarcações Não Tripuladas
Outro bom exemplo vem do projeto SEMS4USV, distinguido pela Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira, que voltou a juntar o Instituto Superior Técnico e a Escola Superior Náutica Infante D. Henrique em 2024.
Este projeto teve como objetivo a entrega de um sistema inteligente de gestão de energia, apoiado por planeamento inteligente de trajetos de missão, aplicado a uma embarcação de superfície não tripulada (USV) desenvolvida internamente. Os USV são utilizados para vigilância fronteiriça, estudos marinhos biológicos e geológicos e apoio defensivo a embarcações.
Competências e Sistemas: O que é Necessário para Apoiar uma Economia Azul Segura
A visão de uma economia global segura, proporcionada pelo setor marítimo, só pode ser alcançada através de um esforço conjunto da academia e da indústria, unindo iniciativas com objetivos comuns, se apoiadas por governos que, ao reconhecerem os desafios e a importância destas matérias, devem também concretizar ações reais. Isto inclui tomar medidas concretas para mitigar riscos potenciais, apoiando cursos académicos, pós-graduações e formação na economia azul que aliem conhecimentos gerais de ciência da computação ao know-how marítimo e de shipping, com os sistemas de informação marítima a servirem como um bom exemplo desta integração.
É crucial não ignorar estas matérias, uma vez que é amplamente sabido que as administrações portuárias enfrentam desafios na transição digital, sendo um deles a falta de recursos humanos num mundo competitivo e interligado.
Abraçar a Mudança: Porque é que a Colaboração é Essencial para um Futuro Marítimo Mais Inteligente
A disrupção traz frequentemente mudanças indesejadas. As mudanças levantam questões, as questões geram desconfiança, e o desconhecido é normalmente pouco convidativo. Os desafios, no entanto, trazem soluções que surgem quando os seres humanos concordam que algo é necessário e que todos contam para um futuro comum. A automação e a IA estão no setor marítimo como ferramentas de eficiência e produtividade, desenvolvimento e apoio à decisão, enquanto a segurança deve vir em primeiro lugar. A integração entre o conhecimento em ciência da computação e o know-how marítimo deve ser incentivada pela academia, indústria e governos, para que as perguntas certas possam ser feitas, as respostas corretas possam ser reconhecidas e as melhores decisões possam ser tomadas, apoiadas por sistemas seguros de bases de dados em tempo real.
