Desbloquear o Potencial da Aquacultura: O Poder Ainda Inexplorado dos Dados

João Janeiro
João Janeiro Investigador S2Aqua Colab

ARTIGO

Etiquetas: #Aquacultura Digital #Dados e Inovação #Economia Azul

À medida que a aquacultura entra na era digital, o seu recurso mais valioso já não se encontra nos viveiros ou nos tanques, mas sim nos dados. Desde os níveis de oxigénio aos registos de alimentação, cada métrica encerra informações valiosas. Neste artigo, João Janeiro, Investigador do S2AQUAcoLAB, explica como a Inteligência Artificial, a monitorização em tempo real e a tecnologia blockchain podem transformar informação em inteligência — e desbloquear uma oportunidade de mil milhões de euros para o futuro sustentável dos produtos do mar na Europa.

Desbloquear o Potencial da Aquacultura: O Poder Ainda Inexplorado dos Dados

Durante décadas, a aquacultura foi definida por elementos tangíveis — a qualidade da água, a eficiência alimentar, a saúde das espécies e as infraestruturas aquícolas. No entanto, no século XXI, existe outro ativo igualmente crítico, embora muito menos visível: os dados.

Cada medição de oxigénio, registo de alimentação, contagem de mortalidade, imagem de satélite ou análise genética representa um fragmento de uma história muito maior. Quando devidamente aproveitada, essa história tem o potencial de transformar a forma como produzimos alimentos, gerimos riscos e preservamos os recursos oceânicos.

Na era da aquacultura digital, o setor dispõe de capacidades tecnológicas sem precedentes: algoritmos de Inteligência Artificial capazes de prever surtos de doenças com semanas de antecedência, redes de sensores que monitorizam em tempo real todas as variações da qualidade da água e plataformas baseadas em blockchain que asseguram total rastreabilidade desde a maternidade aquícola até ao consumidor final.

O potencial é enorme. Mas, para o concretizar, é necessário deixar de encarar os dados apenas como uma exigência operacional e começar a tratá-los como um recurso estratégico gerador de valor. Escondida nestes números está uma solução para um dos maiores desafios da segurança alimentar na Europa — e uma oportunidade de negócio estimada em 1,2 mil milhões de euros à espera de ser concretizada.

O Ponto Cego de 1,2 Mil Milhões de Euros em Portugal

Portugal importa cerca de 70% do pescado que consome, apesar de possuir condições costeiras privilegiadas, instituições de investigação de excelência e um mercado interno altamente consumidor.

Em média, os portugueses consomem mais de 55 kg de produtos do mar por pessoa, por ano — cerca de 600 mil toneladas no total — colocando o país entre os maiores consumidores de pescado do mundo.

Contudo, as pescas extrativas nacionais, que desembarcaram aproximadamente 166 mil toneladas em 2024, estão limitadas pelas rigorosas quotas de sustentabilidade da Política Comum das Pescas da União Europeia, concebidas para proteger recursos haliêuticos vulneráveis e em declínio.

Com as capturas limitadas e várias espécies a atingirem os seus limites biológicos, a diferença entre a oferta nacional e a procura continua a aumentar ano após ano.

A aquacultura é a única solução escalável e sustentável capaz de reduzir esta dependência, diminuindo simultaneamente a pressão sobre os recursos selvagens.

Apesar do seu potencial, a produção aquícola portuguesa continua modesta — apenas cerca de 20 mil toneladas em 2023 — uma fração daquilo que a extensa linha costeira, a tradição marítima e o conhecimento científico do país poderiam suportar.

Este défice é compensado através de importações, contribuindo para um saldo comercial negativo no setor dos produtos do mar estimado em cerca de 1,2 mil milhões de euros em 2024.

O aumento da produção nacional de aquacultura reforçaria a segurança alimentar, manteria maior valor económico no país e posicionaria Portugal como uma referência na Economia Azul, sobretudo se esse crescimento for impulsionado por métodos de produção inteligentes e orientados por dados.

Os Obstáculos Invisíveis

O desenvolvimento da aquacultura continua condicionado por barreiras estruturais: processos de licenciamento longos e complexos, uma supervisão regulatória fragmentada, acesso limitado ao financiamento e um setor composto maioritariamente por pequenas e médias empresas (PME), que continuam a depender fortemente de métodos tradicionais.

Um dos maiores desafios é o paradoxo espacial. Embora Portugal disponha de vastas áreas marítimas adequadas ao desenvolvimento da aquacultura offshore, as zonas costeiras enfrentam uma intensa competição pelo uso do espaço entre a aquacultura, o turismo e a classificação de áreas protegidas. Esta realidade limita a disponibilidade de terrenos para infraestruturas essenciais de apoio, como unidades de processamento, câmaras frigoríficas, oficinas de manutenção e centros logísticos.

Para além destes desafios institucionais, os produtores enfrentam constrangimentos operacionais que influenciam diretamente a adoção de soluções digitais. Qualquer investimento necessita de demonstrar um retorno claro num horizonte de dois a três anos. Os sistemas devem ser suficientemente intuitivos para utilização diária, sem necessidade de conhecimentos técnicos especializados, e suficientemente robustos para responder de forma fiável em momentos críticos, como surtos de doenças.

As preocupações relacionadas com a partilha de dados também continuam a ser significativas. Os dados de produção são considerados informação comercial sensível e muitos operadores continuam relutantes em partilhá-los sem garantias sólidas de confidencialidade e neutralidade competitiva.

Os pequenos produtores — frequentemente com explorações entre 50 e 100 toneladas de produção anual — necessitam de soluções ajustadas à sua escala, interoperáveis entre diferentes entidades públicas e acompanhadas por formação adequada.

A tecnologia necessária para alterar este panorama já existe. Sensores fornecem medições de oxigénio minuto a minuto, algoritmos conseguem identificar sinais precoces de surtos de doenças e modelos de aprendizagem automática permitem prever o crescimento dos peixes com meses de antecedência.

O verdadeiro obstáculo já não é tecnológico — é estrutural.

Quando os dados são recolhidos mas permanecem isolados em diferentes sistemas, perdem grande parte do seu valor. Sem integração entre explorações aquícolas, centros de investigação e entidades reguladoras, perdem-se oportunidades de otimização, aprendizagem e antecipação.

Na ausência destas condições, o potencial dos dados corre o risco de ficar ofuscado pela burocracia, pela complexidade e pela perceção de retornos incertos.

Os Dados Como Ativo Intangível

Uma mudança fundamental de paradigma passa por encarar os dados como um ativo intangível — um bem valioso, embora não físico, semelhante a uma patente ou a uma marca, que não se desgasta e pode ser reutilizado continuamente para gerar valor.

Esta perspetiva ajuda diretamente os produtores a investir em tecnologia, transformando os dados de um simples subproduto operacional numa ferramenta para obtenção de financiamento, redução de risco e criação de novas fontes de receita.

Na prática, isto pode acontecer de três formas.

Em primeiro lugar, através da redução do risco e da demonstração de valor. Anos de registos sobre qualidade da água podem alimentar modelos de Inteligência Artificial capazes de prever surtos de doenças, reduzindo perdas entre 20% e 30%. Isto torna os investimentos tecnológicos mais seguros e justifica os custos iniciais através de retornos rápidos.

Em segundo lugar, os dados podem facilitar o acesso ao financiamento. Bancos e investidores, alinhados com as orientações europeias, podem oferecer melhores condições de crédito ou acesso a apoios — por exemplo, através do Fundo Europeu dos Assuntos Marítimos, das Pescas e da Aquicultura (FEAMPA) — quando as explorações conseguem demonstrar eficiência operacional baseada em dados. Uma pequena empresa aquícola poderá utilizar dados de crescimento para obter financiamento destinado à instalação de novos sensores, comprovando ganhos de produtividade perante os financiadores.

Em terceiro lugar, os dados podem ser monetizados. Informação anonimizada poderá ser partilhada ou comercializada através de plataformas seguras baseadas em blockchain, criando novas fontes de rendimento.

Os produtores de salmão na Noruega já seguem este modelo, atraindo investimento tecnológico que aumenta significativamente a eficiência da indústria.

Naturalmente, importa manter uma perspetiva realista. Dados insuficientes, má gestão da informação ou processos inadequados podem originar previsões incorretas e outros problemas. Contudo, com formação adequada e normas comuns de qualidade, estes riscos podem ser minimizados, transformando os dados num ciclo contínuo de investimento e crescimento.

A Aliança Improvável Que Está a Transformar a Aquacultura

Reduzir a distância entre o potencial e a realidade exigirá muito mais do que investimento em tecnologia. Será necessário investir em pessoas capazes de transformar informação em impacto.

É aqui que a combinação entre empreendedores e intraempreendedores assume um papel decisivo.

Os empreendedores podem desenvolver ferramentas e serviços que permitam às PME dar o salto para a aquacultura digital sem investimentos iniciais incomportáveis. Plataformas de análise por subscrição, serviços de monitorização remota e soluções de gestão aquícola orientadas para dispositivos móveis podem democratizar o acesso às tecnologias mais avançadas.

Por sua vez, os intraempreendedores — profissionais inovadores que trabalham dentro de organizações estabelecidas, entidades públicas e instituições de investigação — podem complementar este esforço. Podem simplificar processos de licenciamento através da utilização de dados, harmonizar normas de interoperabilidade entre regiões e adaptar tecnologias emergentes, como blockchain ou Inteligência Artificial, às necessidades específicas da aquacultura portuguesa.

Em conjunto, podem criar um ecossistema onde a aquacultura portuguesa cresce não apenas em volume de produção, mas também em resiliência, eficiência e responsabilidade ambiental, concretizando finalmente o potencial que há muito lhe é reconhecido.

Do Valor Invisível à Prosperidade Partilhada

Libertar o verdadeiro valor dos dados exige mais do que tecnologia. Exige uma mudança cultural.

Os produtores precisam de deixar de encarar os dados como uma obrigação administrativa e começar a vê-los como um investimento na sua competitividade.

Os decisores políticos devem criar incentivos e enquadramentos regulatórios que promovam a partilha responsável de dados e a interoperabilidade entre sistemas.

Os investidores precisam de reconhecer que as empresas mais promissoras poderão ser precisamente aquelas que tratam os seus dados como um ativo estratégico.

A recompensa desta mudança de paradigma é significativa: um setor mais resiliente às alterações climáticas, mais atrativo para o investimento e merecedor de maior confiança por parte dos consumidores.

Os dados tornam-se a ponte entre a sustentabilidade ambiental e o crescimento económico, permitindo à aquacultura responder à crescente procura mundial por produtos do mar, enquanto protege os ecossistemas que sustentam essa produção.

O desafio é real, mas a oportunidade também.

Algures entre os terabytes de medições de oxigénio, registos de alimentação e dados de crescimento já recolhidos encontra-se a chave para o próximo grande salto da aquacultura sustentável.

Quem conseguir desbloquear esse potencial não estará apenas a melhorar a eficiência da sua própria produção — estará também a ajudar a definir o futuro da Economia Azul à escala global.