Conteúdo Gerado pelos Utilizadores no Planeamento Costeiro Inteligente: 4 Estratégias para a sua Implementação

Adriana Fernandes
Adriana Fernandes ENIDH

ARTIGO

Etiquetas: #Gémeos Digitais #Gestão Costeira Inteligente #Planeamento Costeiro

As nossas zonas costeiras estão a mudar rapidamente — sob pressão das alterações climáticas, do turismo e do crescimento urbano. O futuro das zonas costeiras não é moldado apenas por satélites. Neste artigo, Adriana Fernandes, da ENIDH, mostra como fotografias e publicações partilhadas diariamente pelos cidadãos podem contribuir para um planeamento costeiro mais inteligente e mais humano.

Porque é que o conteúdo gerado pelos utilizadores importa no planeamento costeiro inteligente?

4 estratégias para a sua implementação

O que podemos aprender sobre o futuro das nossas zonas costeiras a partir das fotografias, comentários e opiniões que as pessoas partilham diariamente nas redes sociais?

À primeira vista, estas publicações podem parecer pouco relevantes para o planeamento. No entanto, o Conteúdo Gerado pelos Utilizadores — ou User-Generated Content (UGC) — desde fotografias georreferenciadas de praias e avaliações em plataformas de viagem até tendências de comportamento nas redes sociais, oferece dados informais ricos, capazes de revelar como os cidadãos vivem, utilizam e percecionam os espaços costeiros.

Num contexto de intensificação das alterações climáticas, crescimento do turismo e aumento da pressão sobre a linha de costa, ignorar estes contributos significa deixar de lado uma fonte de informação viva e quase em tempo real. O UGC deve ser integrado em ferramentas como gémeos digitais, painéis de planeamento e plataformas participativas, reconhecendo que os dados valiosos não vêm apenas de satélites e sensores, mas também da experiência humana vivida.

Planeamento Sem a Voz Humana

O planeamento costeiro tem dependido, tradicionalmente, de dados técnicos: imagens de satélite, sensores ambientais e levantamentos geofísicos. Embora essenciais, estas fontes excluem as perspetivas quotidianas de quem vive, trabalha ou visita a costa. O resultado é um planeamento tecnicamente robusto, mas socialmente desconectado (Martínez-Ruiz et al., 2021).

Além disso, o U.S. Geological Survey (2023) concluiu que os gestores locais têm dificuldade em aplicar os dados disponíveis devido à complexidade das ferramentas digitais e ao baixo envolvimento público. A distância entre a ciência e a experiência das comunidades continua, por isso, a ser significativa.

O conteúdo gerado pelos utilizadores oferece uma ponte: permite captar perceções espontâneas sobre o uso das zonas costeiras, pressões existentes e potenciais conflitos. Estudos como o de Ghermandi (2023) demonstram que o UGC pode ajudar a mapear padrões de utilização e a detetar problemas mais rapidamente do que a monitorização tradicional isolada.

O Valor dos Dados Informais

Os dados provenientes das redes sociais oferecem perspetivas únicas sobre o comportamento humano e as perceções ambientais, com grande relevância para a sustentabilidade (Ghermandi, 2023).

Por exemplo, Murphy et al. (2021) analisaram publicações no Twitter sobre marés vermelhas na Florida e verificaram que o volume de publicações coincidia com a presença de toxinas, mortalidade de peixes e queixas respiratórias — demonstrando que as redes sociais podem funcionar como um sistema de alerta ambiental quase em tempo real.

De forma semelhante, Jeong et al. (2021) analisaram dados do Flickr e do Twitter para mapear pontos turísticos na Coreia do Sul, encontrando uma forte correlação com estatísticas oficiais de visitas e identificando locais menos conhecidos.

Em conjunto, estes exemplos confirmam que aquilo que antes era visto como “ruído digital” pode ser transformado em inteligência operacional — desde que seja filtrado, validado e integrado com outras fontes de dados.

Estudos de Caso

Algumas iniciativas já utilizam contributos dos cidadãos na monitorização costeira. Na Austrália, o CoastSnap permite que os utilizadores das praias fotografem pontos de observação fixos e partilhem essas imagens online, criando séries temporais que acompanham a evolução da linha de costa com uma precisão próxima da científica (Harley et al., 2019).

Na Europa, projetos descritos por Martínez-Ruiz et al. (2021) recolhem perceções locais sobre turismo e conservação através de plataformas participativas, integrando essa informação em sistemas de informação geográfica. O resultado são análises mais completas, que combinam conhecimento institucional e comunitário.

Estes casos mostram que o UGC não substitui os dados científicos — amplifica-os, acrescentando contexto humano, validando hipóteses e revelando sinais precoces de alerta.

Do UGC ao Conhecimento Acionável

Para tornar o Conteúdo Gerado pelos Utilizadores central no planeamento costeiro inteligente, destacam-se quatro estratégias principais (Jeong et al., 2021; Harley et al., 2019; Ghermandi, 2023; Martínez-Ruiz et al., 2021):

1. Integrar o UGC em gémeos digitais costeiros.
Utilizar conteúdo georreferenciado, anonimizado e validado para alimentar modelos virtuais capazes de simular tanto alterações físicas como experiências das comunidades.

2. Desenvolver painéis interativos.
Criar plataformas que combinem dados oficiais com contributos públicos — acessíveis tanto a especialistas como a cidadãos — para reforçar a transparência e apoiar o diálogo.

3. Garantir fontes éticas e diversas.
Aplicar protocolos de curadoria que reduzam enviesamentos tecnológicos e culturais, protejam a privacidade e assegurem representatividade geográfica e social.

4. Reforçar a capacitação dos utilizadores.
Formar decisores para interpretar e aplicar o UGC de forma crítica, garantindo que as plataformas conduzem a decisões informadas e não funcionam apenas como ferramentas visuais.

Com estas medidas, o UGC pode evoluir de vestígios dispersos online para um recurso estruturado e estratégico, capaz de apoiar decisões mais inclusivas e quase em tempo real.

Riscos e Compromissos

A integração do conteúdo gerado pelos utilizadores traz benefícios, mas também desafios: sub-representação de comunidades menos digitalizadas, preocupações com privacidade que exigem consentimento informado e qualidade variável dos dados.

A solução passa por combinar filtragem automática, revisão humana e triangulação com dados científicos e administrativos — estes últimos incluindo registos oficiais como cadastro predial, estatísticas de turismo, planos de ordenamento ou relatórios ambientais. Desta forma, o UGC mantém-se como uma camada complementar, enriquecendo, mas não substituindo, a monitorização tradicional.

Manter uma abordagem exclusivamente técnica representa o risco de políticas costeiras mais lentas, menos responsivas e socialmente desconectadas — um risco que já não podemos permitir.

Conclusão

A integração de contributos online em gémeos digitais e painéis participativos representa uma revolução discreta no planeamento costeiro, tornando-o mais humano, ágil e inclusivo.

A evidência mostra que o UGC pode ajudar a identificar problemas ambientais, acompanhar fluxos turísticos e melhorar modelos de decisão — mas apenas quando utilizado com ética, representatividade e rigor técnico.

Os espaços costeiros pertencem a todos, mas as decisões continuam, demasiadas vezes, a ser tomadas em círculos técnicos fechados. Neste contexto, as vozes digitais podem tornar-se ferramentas úteis para detetar riscos mais cedo, antecipar conflitos e adaptar políticas a realidades que mudam em semanas, e não em décadas.

À medida que as mudanças ambientais e sociais aceleram, a integração do UGC representa uma oportunidade importante para manter o planeamento costeiro responsivo, relevante e alinhado com as experiências reais das comunidades.