Hub Azul Portugal

O que está a promover a inovação na Biotecnologia Azul?

A visão de Vítor Vasconcelos, Presidente do Conselho de Administração do CIIMAR, parceiro do consórcio do Hub Azul Leixões 1.

Esta entrevista foi realizada a Vítor Vasconcelos, Professor Catedrático na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e Presidente do Conselho de Administração do CIIMAR, no âmbito do projeto Blue Compass, promovido pela Rede Hub Azul Portugal, com base em insights do Hub Azul Dealroom, a principal plataforma digital de matchmaking para a inovação azul.

Quais são os avanços científicos ou tecnológicos que atualmente impulsionam a inovação em Biotecnologia Azul?

A inovação na Biotecnologia Azul está a ser impulsionada por diversos avanços científicos e tecnológicos, incluindo avanços em genómica, bioinformática, engenharia genética e inteligência artificial (IA). O facto de ser mais rápido e barato desvendar genomas completos de organismos, combinado com ferramentas assistidas por IA para anotação genética, está a permitir a descoberta de novos compostos bioativos, o desenvolvimento de técnicas inovadoras de bioprocessamento e a utilização de organismos marinhos para várias aplicações, como produção de alimentos e rações, fármacos, biofertilizantes, cosméticos, novos materiais e a utilização de microrganismos inteiros para biorremediação.

Existe ainda uma grande parte da biodiversidade marinha mundial por descobrir, especialmente microrganismos que possuem agrupamentos genéticos ricos, responsáveis por novas químicas em enzimas especiais com aplicações industriais. O estabelecimento de Biobancos Azuis Marinhos deve ser visto como um avanço científico importante para a Biotecnologia Azul, com a recolha, preenchimento e armazenamento de milhões de espécimes que podem ser utilizados globalmente para descobrir novas utilizações de forma sustentável.

Estes Biobancos podem conter espécimes vivos (coleções de bactérias, fungos, microalgas), material genético, amostras preservadas ou extratos. O Biobanco Azul Português, que está a ser estabelecido no âmbito do programa PRR (Pacto de Inovação Azul), é um bom exemplo, estando a formar uma rede de biobancos marinhos distribuídos por todo o país para serem utilizados tanto pela comunidade científica como por empresas para criar valor.

Quais os subsectores da Biotecnologia Azul (por exemplo, materiais à base de algas, edição genética, biocombustíveis, bioprodutos marinhos) que têm maior potencial de comercialização?

A comercialização de novos produtos derivados de organismos marinhos irá criar novas oportunidades económicas, especialmente para comunidades costeiras e regiões com uma forte tradição marítima, proporcionando um valor acrescentado superior aos organismos marinhos, muito maior do que os produtos tradicionalmente derivados da pesca ou da indústria conserveira. As aplicações que podem chegar mais rapidamente ao mercado são aquelas nos setores da alimentação e rações, incluindo nutracêuticos que podem ter preços de mercado mais elevados. Estes podem ser usados como ingredientes que acrescentam valor aos produtos finais. Biofertilizantes, bioestimulantes e bioprotetores, principalmente de origem algal, já estão a ser produzidos por muitas startups e PME, maioritariamente utilizando micro e macroalgas produzidas em sistemas circulares sustentáveis.

Os cosméticos produzidos a partir de algas também estão a aumentar a sua entrada no mercado, dado o facto de serem veganos e possuírem propriedades protetoras importantes em comparação com os não-orgânicos. Novas aplicações de organismos marinhos incluem as indústrias têxtil e de calçado (por exemplo, pigmentos funcionais como corantes, fibras de macroalgas, utilização de redes descartadas e plástico recolhido para sapatos), tintas anti-incrustantes (provenientes de cianobactérias e outros microrganismos), novos materiais (por exemplo, polissacarídeos extracelulares para embalagens e aumento da vida útil de produtos frescos).

A necessidade de novos fármacos, em especial novos antibióticos para combater bactérias multirresistentes, é também uma oportunidade para a Biotecnologia Azul, num período de produção médio-longo, mas com elevado potencial de comercialização.

Quais são os principais desafios — técnicos, regulamentares ou financeiros — que atualmente limitam a escalabilidade das soluções de Biotecnologia Azul?

Estes desafios vão desde fatores como a complexidade dos ecossistemas marinhos e o acesso a recursos genéticos, até obstáculos regulamentares para novas tecnologias, em especial a edição genética, e dificuldades em garantir financiamento para projetos de elevado risco e longo prazo. O desenvolvimento do setor da Biotecnologia Azul ainda depende muito de PME (spin-offs e startups) que lutam para encontrar recursos técnicos e financeiros para desenvolver os seus produtos, processos e serviços.

O financiamento inicial é sempre um problema num setor que não proporciona um retorno imediato em comparação com o setor de TI. Existe a necessidade de estabelecer incubadoras fortes, próximas de centros de investigação consolidados, que possam fornecer apoio tecnológico nas fases iniciais das PME. O setor da Biotecnologia Azul normalmente necessita de recursos tecnológicos dispendiosos, que uma PME recém-criada não pode e não deve suportar sozinha. Entidades de financiamento que apoiem um setor de alto risco e elevado potencial são também necessárias, uma vez que as PME dependem fortemente de investimentos significativos nas fases iniciais do seu desenvolvimento, o que constitui uma limitação séria na Europa.

A simplificação dos processos de licenciamento é igualmente necessária, visto que estas PME não podem esperar vários anos para obter permissões para operar, construir instalações ou licenciar novos produtos. A comunicação orientada para o consumidor é também uma ação crítica para facilitar a aceitação de um determinado produto ou serviço pelo consumidor final. Esta ação em particular é útil para os intervenientes em toda a cadeia de valor, mas muitas vezes só é economicamente sustentável para grandes empresas.

A Importância da Inovação na Biotecnologia Azul

A Visão de Ricardo Calado, Coordenador Científico do CEPAM-ECOMARE e Project Manager do Hub Azul Aveiro (H4 – CITAQUA)

Esta entrevista foi realizada a Ricardo Calado, Coordenador Científico do CEPAM-ECOMARE e Project Manager do Hub Azul Aveiro (H4 – CITAQUA) , no âmbito do projeto Blue Compass, promovido pela Rede Hub Azul Portugal, com base em insights do Hub Azul Dealroom, a principal plataforma digital de matchmaking para a inovação azul.

Quais são os avanços científicos ou tecnológicos que atualmente estão a impulsionar a inovação na Biotecnologia Azul?

 A Biotecnologia Azul encontra-se numa fase de desenvolvimento acelerado, sobretudo devido aos avanços das tecnologias de sequenciação de nova geração e múltiplas ferramentas ómicas que têm vindo a ser aperfeiçoadas. Desde a metagenómica, a transcriptómica e a metabolómica, até à proteómica, lipidómica e glicómcia, todas estas ferramentas permitem estudar o material genético e as biomoléculas presentes nos organismos marinhos de uma forma cada vez mais rápida e precisa.

Com o apoio de pipelines bioinformáticos cada vez mais eficientes apoiados por inteligência artificial, tem sido possível descobrir cada vez mais novas enzimas, metabolitos secundários e compostos bioativos em menos tempo e com menores custos associados. É muito importante também referir os avanços alcançados na edição genética, com ênfase na técnica CRISPR (CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats), que abre novos horizontes para a produzir, por exemplo, microrganismos geneticamente modificadas que possam mais facilmente ser produzidos em reatores e dar origem a uma biomassa especificamente desenvolvida para ser valorizada na produção de biocombustíveis, como ingredientes para rações, como biofertilizantes e/ou compostos farmacêuticos.

Os aspetos relacionados com a circularidade, a valorização integral dos biorrecursos marinhos e a sustentabilidade dos bioprocessos desenvolvidos são aspetos igualmente importantes na promoção de um paradigma de bioeconomia suportado por ferramentas de biotecnologia azul.

Que subsectores da Biotecnologia Azul (ex: materiais à base de algas, edição genética, biocombustíveis, bioprodutos marinhos) têm maior potencial de comercialização?

Não é simples responder a essa questão sem o devido enquadramento regional, pois o mesmo varia com o investimento associado à inovação, as necessidades do mercado e os biorrecursos disponíveis. Os constrangimentos legais à comercialização de novos produtos, processos e serviços assentes na biotecnologia azul é também muito variável de região para região. No entanto, poderão destacar-se os seguintes subsetores com tendo um maior potencial de comercialização:

– Valorização de subprodutos/coprodutos do processamento de pescado para desenvolvimento de novos produtos nutracêuticos (ex:, suplementos alimentares ricos em ácidos gordos ómega-3), cosmecêuticos (ex:, produtos refirmantes de pele) e farmacêuticos (ex:, anti-inflamatórios, antivirais e anestésicos para combate à dor crónica);

– Valorização de macroalgas para a produção de biofertilizantes, bioplásticos e/ou têxteis, de modo a acelerar a transição verde e promover uma redução de plásticos derivados de combustíveis fósseis;

– Edição genética de organismos marinhos com recurso a CRISPR (ou a outras tecnologias de engenharia genética) para melhoramento de micro e macroalgas, assim como outros organismos marinhos produzidos em aquacultura, para aumento da sua produtividade, com ênfase para uma maior resistência a doenças; o aumento da produção de metabolitos de interesse (ex: óleos, pigmentos, produtos bioativos com diversos tipos de bioatividade) é igualmente explorado, embora os constrangimentos legais existentes em muitos mercados, nomeadamente na União Europeia, possam retardar (ou até mesmo impedir) a comercialização.

Quais são os principais desafios — técnicos, regulatórios ou financeiros — que limitam hoje a escalabilidade das soluções da Biotecnologia Azul?

Do ponto de vista Técnico, vale a pena referir que existem ainda limitações ao acesso, captura e/ou produção de vários organismos marinhos com potencial biotecnológico, nomeadamente aqueles que vivem em ambientes extremos e, como tal, são mais difíceis de aceder. A complexidade química de muitas das biomoléculas presentes nos organismos marinhos com interesse biotecnológico torna-as muitas vezes de difícil replicação em laboratório, sendo necessário recorrer à utilização de tecnologias muito avançadas e dispendiosas em termos de tempo e de recursos financeiros para clarificar e replicar as suas estruturas e funções. Adicionalmente, nem sempre existem meios, ou até mesmo tecnologia, que permita promover um cultivo sustentável e em larga escala de micro e/ou macro organismos marinhos com elevado potencial biotecnológico, o que que compromete a sua produção a uma escala industrial. O mesmo pode ser dito dos bioprocessos necessários para transformar a biomassa marinha em novos produtos, processos e serviços de forma ambientalmente e economicamente sustentável.

Do ponto de vista Regulatório, a legislação que enquadra este setor é extremamente complexa, muitas vezes omissa, e bastante fragmentada. O acesso e a exploração de recursos genéticos marinhos estão enquadrados em áreas de jurisdição nacional e internacional, merecendo destaque a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) e o Protocolo de Nagoya, que se traduzem, muitas vezes por desconhecimento das autoridades, num manancial de burocracia que atrasa e muitas vezes impede a concessão de licenças, comprometendo assim a inovação e a entrada no mercado.

Do ponto de vista financeiro merece destaque a natureza intensiva do capital necessário para promover a Biotecnologia Azul, face à especificidade dos equipamentos necessários para bioprospetar o meio marinho (ex: navios de investigação), dos equipamentos laboratoriais para caracterizar e replicar a diversidade química dos recursos genéticos existentes nos mares e oceanos e a necessidade de recorrer a equipas multidisciplinares altamente qualificadas. Adicionalmente, esta é uma atividade de risco elevado e de retorno financeiro de longo prazo, uma vez que apresenta ciclos de desenvolvimento longos (quase sempre superiores a 10 anos) dos quais pode não advir o retorno financeiro esperado, o que dificulta o financiamento destas atividades junto dos canais mais tradicionais.

O Futuro da Energia Eólica Offshore

A Visão de José Pinheiro, CEO da Ocean Winds

Esta entrevista foi realizada a José Pinheiro, CEO da OW Ocean Winds Portugal, com responsabilidade do mercado ibérico, no âmbito do projeto Blue Compass, promovido pela Rede Hub Azul Portugal, com base em insights do Hub Azul Dealroom, a principal plataforma digital de matchmaking para a inovação azul.

O setor das energias renováveis oceânicas está a evoluir ao ritmo necessário para cumprir as metas energéticas e climáticas? O que falta ainda?

Para o cumprimento das metas energéticas e climáticas, podemos constar que ainda há muito por fazer no âmbito do setor das energias renováveis oceânicas, se considerarmos que:

– Actualmente as energias renováveis apenas fornecem 15% de toda a electricidade a nível planetário;

– Será necessário atingir 60% de produção de energias renováveis em 2030, e 90% em 2050, para alcançarmos a neutralidade carbónica desejada;

– 70% da superfície do Planeta está coberta pelo Oceano.

Do Oceano provirá, sem qualquer margem de dúvida, a maior fonte de energia renovável ainda por explorar (seja ondas, marés, gradiente de temperatura ou salinidade, ou o vento que se gera no Oceano) como alternativa às fontes não renováveis, concluindo-se então que muito haverá ainda a fazer no domínio do Oceano.

Se colocarmos apenas enfoque na energia eólica offshore – que é já consensual, que terá um papel muito relevante no processo de transição energética rumo à neutralidade carbónica – existem actualmente 70 GW de capacidade instalada, e a previsão que sejam 600 GW em 2050; reforçando a ideia anterior, e que há a necessidade de acelerar o ritmo.

Actualmente, na Ocean Winds contamos com um portefólio de mais de 18,8 GW eólico offshore (fixo e flutuante), distribuídos por 8 países, trabalhando diariamente com o objectivo continuar a ser actores-chave nesta transição energética.

Quais são as principais lacunas que ainda dificultam a escalabilidade dos projetos offshore no setor energético? Como podem ser colmatadas?

Os desafios que se colocam são, em geral, transversais a todas as energias renováveis que necessitam ganhar escala de implementação. E a escalabilidade é essencial que ocorra nos próximos anos, de modo a assegurar que conseguimos chegar aos objectivos do Acordo de Paris e projectar esta transição rumo a 2050.

Para escalarmos as energias renováveis offshore, necessitamos de assegurar vários factores, entre os quais podemos destacar os seguintes:

. Desenvolvimento de políticas energéticas: as políticas energéticas devem ser correctas, e concertadas entre países, numa lógica de garantia de estabilidade e de coesão.

. Regulação: que permita a venda da electricidade produzida (seja para o sistema eléctrico, seja para o consumidor final)

. Financiamento: trata-se de milhares de milhões (de euros) de investimento.

. Cadeia de fornecimento: é preciso também ganhar outra escala, para podermos referir-nos a uma indústria verdadeiramente global.

. Recursos Humanos: Devemos ter mais pessoas devidamente capacitadas para desempenhar estas funções em toda a extensão da cadeia de valor do sector.

Quais os principais desafios na integração das energias renováveis oceânicas na rede elétrica e na sua articulação com utilities e operadores do sistema?

O facto de que as redes elétricas se tenham de expandir para o mar, é algo que estamos a ver como uma consequência natural da evolução dos sistemas elétricos. Obviamente, no mar existem desafios que não existem em terra, mas não creio que os grandes desafios neste momento sejam tecnológicos. Continua a ser, essencialmente, um tema de rumo de política energética e definição de regulação; determinando, perfeitamente, o papel do promotor do projeto e do operador da rede, bem como identificando as interfaces, de forma clara. É essencial acomodar, de forma equilibrada, os riscos de cada um deste atores, que no fundo são essenciais para que estes projetos sejam exequíveis a todos os níveis – técnico e financeiro.

O Futuro das Energias Renováveis Oceânicas: Desafios e Oportunidades

Por Bernardo Silva, manager INESC TEC

Esta entrevista foi conduzida a Bernardo Silva, manager do INESC TEC, no âmbito do projeto Blue Compass, promovido pela Rede Hub Azul Portugal, com base em insights do Hub Azul Dealroom, a principal plataforma digital de matchmaking para a inovação azul.

O setor das energias renováveis oceânicas está a evoluir ao ritmo necessário para cumprir as metas energéticas e climáticas? O que falta ainda?

Em primeiro lugar, torna-se necessário distinguir as fontes de energia, nomeadamente a eólica offshore, energias das ondas, energia das marés e solar oceânico. A energia eólica offshore encontra-se em estado de maturidade comercial, tendo inclusivamente provas dadas em território nacional. Todavia, as energias das ondas, a energia das marés e solar oceânico estão numa fase de menor amadurecimento tecnológico. Para o cumprimento das metas, temos que dispor de sistemas de energias offshore que garantam mais energia de fonte renovável e desejavelmente menor custo nivelado de eletricidade (CNE), podendo ter que recorrer a diversas fontes de energia, partilhando a utilização das infraestruturas de interligação com a rede em terra, que representam um custo significativo. Deste modo, falta ainda algum desenvolvimento para o cumprimento de metas. Não obstante, o investimento em eólica offshore com CNE aceitáveis, poderá ajudar bastante o aumento de penetração de fontes renováveis no sistema elétrico e criar infraestruturas necessárias para a futura interligação de outras fontes de energia oceânicas.

Que desafios técnicos (ainda) limitam a viabilidade comercial de novas tecnologias em energias renováveis oceânicas?

Novas tecnologias têm de ser testadas e para tal é necessária uma espécie de “via verde” para os testes, permitindo o acesos e interligação às redes elétricas de uma forma célere.

Por outro lado, torna-se importante o desenvolvimento industrial que permita o suporte a todas as atividades e posteriormente à fabricação de componentes que integrarão as novas tecnologias, em fase comercial.

Relativamente às questões de ligação à rede, é ainda necessário estudar o futuro de novas subestações que permitam interligar conjuntos de geradores à infraestrutura de ligação à terra, de forma a reduzir o número de circuitos de cabos submarinos com elevado comprimento.

Por outro lado, a própria interligação entre dispositivos de diferentes tecnologias de uma forma plug-&-play, deve ser alvo de I&D, explorando-se o conceito de “T-connector”, uma espécie de “ficha tripla” em grande escala e à prova das condições oceânicas.

Que inovações (eg. materiais, digitalização ou inteligência artificial) têm o potencial de transformar as tecnologias oceânicas?

As energias oceânicas têm custos de instalação e manutenção elevados. Todavia, a inovação poderá trazer a redução destes custos, através da adoção de novas tecnologias, quer para monitorização, quer para a manutenção, permitindo otimizar processos e aceder a modelos de gémeos digitais para averiguação do índice de saúde de diversos componentes.

Nesta vertente, a robótica autónoma terá um papel fundamental em tarefas de inspeção e recolha de dados. Por outro lado, a análise dos dados e digitalização dos diferentes sistemas, permitirão a adoção de modelos matemáticos que poderão identificar anomalias assim como definir a melhor janela temporal para efetuar tarefas de manutenção.

Por fim, modelos de inteligência artificial poderão ser treinados para a previsão dos recursos e deteção de fenómenos extremos, que permitirão adotar estratégias de proteção preventiva dos ativos de produção de energia. Não obstante, toda a tecnologia poderá permitir também o aumento do conhecimento da vida marinha envolvente, criando bases de dados para estudos futuros uma vez que se baseará numa forte rede de sensores

MONETIZAR A SAÚDE DO OCEANO COM AS EÓLICAS OFFSHORE

Temos um modelo de negócio que monetiza a saúde do oceano: descarbonizar a energia e restaurar a saúde do mar, com uma indústria exportadora de tecnologia ESG geradora de lucro, emprego e impostos para o financiamento do Estado social democrático.

Por Ruben Eiras – Secretário-Geral do Fórum Oceano

É um facto cientificamente provado e não apenas “wishful thinking”: as eólicas offshore flutuantes são reais aceleradores de novo capital natural marinho, para além da produção de eletricidade e (potencialmente) hidrogénio renovável. Esta é a conclusão que o grupo de investigadores da Universidade do Minho retirou da investigação: cerca de 50 novas espécies usam as infraestruturas de amarração e flutuantes para se abrigarem e multiplicarem.

Esta constatação é assaz importante, não só porque comprova o impacto ESG positivo da indústria emergente das energias renováveis oceânicas, mas também porque abre novas perspetivas de industrialização sustentável do mar português e da respetiva estratégia de “project finance” sustentável: ou seja, combinar as eólicas offshore flutuantes com o setor emergente dos recifes artificiais aumentará o impacto ESG da infraestrutura, por via do efeito simultâneo de substituição energética (cash-flow descarbonizado), do crescimento da biodiversidade marinha (impacto ESG gerador de crescimento dos stocks piscatórios) e do aumento da capacidade oceânica de sequestro de carbono (se o bio-design dos recifes permitir o surgimento de florestas de macroalgas, mais atrativo ficará o investimento para trading no mercado de créditos de CO2).

Ou seja, com esta abordagem integrada de renováveis oceânicas e recifes artificiais maximiza-se a aplicação da “Teoria da Mudança” em uso pelo Fundo de Investimento Europeu, no que se refere à quantificação da ligação do desempenho do lucro relacionado com a performance ESG: quanto mais energia se produzir com as eólicas offshore flutuantes (vendas) não só diminuirá o consumo das fontes fósseis (efeito de substituição com impacto ESG), como também aumenta a biodiversidade marinha e a capacidade de captura de carbono azul (segundo e terceiro impactos ESG cumulativos).

As oportunidades para as empresas portuguesas
E agora vamos a números. Segundo os dados da plataforma Hub Azul Dealroom gerida pelo Fórum Oceano, estamos a tratar de dois setores que representam uma gigante oportunidade para Portugal, de duas naturezas: o valor de mercado empresarial da fileira das energias renováveis oceânicas já é de 6,9 biliões de euros, e encontra-se numa fase pré-comercial; o sub-setor emergente e “early stage” dos recifes artificiais e fundações para eólicas offshore, na categoria da Restauração Ambiental, com apenas 3 startups identificadas, já têm o simpático valor de mercado empresarial de 185 milhões de euros.

Além disso, de acordo com o Blue Invest Report 2023 da Comissão Europeia, a tendência é de aumento da exposição dos investidores nestas duas fileiras nos próximos 3 anos, sendo a das energias renováveis oceânicas a segunda, num total de 10 fileiras, que atrairá mais capital.

Mas em que cadeia de valor industrial destas fileiras deverá Portugal apostar? No setor dos recifes artificiais, tendo o país fortes empresas na construção civil e na engenharia marítimo -portuária, ainda vai a tempo de conseguir posicionar-se para um domínio integral da cadeia de valor.

Na fileira das energias renováveis oceânicas, as oportunidades de posicionamento são mais diversas, mas também com muito maior complexidade na escolha. Analisando os dados da plataforma Hub Azul Dealroom, para além da óbvia produção dos componentes e plataformas das eólicas offshore, há outros três nichos ainda com aparente espaço: serviços digitais (inteligência artificial e big data) e robótica para a gestão operacional dos parques eólicos flutuantes; otimização tecnológica dos navios de operações de manutenção para eólicas offshore; fundações para eólicas offshore que regenerem o ecossistema marinho.

Com o leilão das eólicas offshore flutuantes no horizonte, o impacto transformador desta oportunidade é claro para Portugal – temos um modelo de negócio que monetiza a saúde do oceano: descarbonizar a energia e restaurar a saúde do mar, com uma indústria exportadora de tecnologia ESG geradora de lucro, emprego e impostos para o financiamento do Estado social democrático.

Artigo publicado no Jornal de Negócios: https://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/ruben-eiras/detalhe/monetizar-a-saude-do-oceano-com-as-eolicas-offshore

MERCADO B2B ALIMENTAR É A CHAVE DA BIOTECNOLOGIA AZUL

É o pragmatismo do empreendedor e do investidor que concretiza a paixão do cientista, e torna realidade a economia azul sustentável geradora de empregos e de riqueza inclusiva.

Por Ruben Eiras – Secretário-Geral do Fórum Oceano

A biotecnologia azul é propalada como uma área promissora para o desenvolvimento sustentável e crescimento inovador da economia do mar portuguesa. Com efeito, o potencial das suas aplicações é imenso: alimentar, cosmética, farmacêutica e até industrial. Além disso, tem a particularidade especial de muitas destas aplicações poderem ser realizadas em ambiente controlado, com replicação laboratorial e com uma extração mínima de biomassa a partir do ecossistema. E também é uma área em que Portugal é forte cientificamente.

Contudo, apesar de todas estas vantagens, o facto é que a fileira da biotecnologia azul tarda em entregar o valor comercial face às expectativas criadas. Vejamos os números e as tendências de investimento. De acordo com os últimos dados patentes na Hub Azul Dealroom, a plataforma digital de ecossistema que conecta investidores com empreendedores gerida pelo Fórum Oceano no âmbito do projeto PRR Hub Azul, o valor de mercado empresarial da fileira da biotecnologia azul não vai além dos 838 milhões de euros – em contraste, em comparação com outro setor emergente, o da energia renovável azul, este já se encontra num patamar de valorização de mercado de 6,9 mil milhões de euros. Ademais, no Blue Invest Report 2022, publicado pela Comissão Europeia e realizado pela equipa da PWC Portugal, a fileira da biotecnologia azul é uma daquelas em que os investidores perspetivam diminuir a sua exposição nos próximos três anos.

Como então explicar esta aparente desconexão entre a perceção pública elevada sobre a viabilidade da biotecnologia azul e a tendência de retração na comunidade de investidores? Primeiro, é preciso ter em conta que, geralmente, existe uma “decálage” temporal de atraso entre o momento das decisões dos investidores e a perceção pública de uma fileira. Ou seja, normalmente, os investidores, estando muito mais perto da dinâmica da realidade no terreno, antecipam a instalação da tendência dominante. E o que estamos a assistir na fileira da biotecnologia azul é exatamente este comportamento.

O risco elevado da biotecnologia azul
Segundo, quais as causas desta tendência de retração? A fileira da biotecnologia azul não é imune às dinâmicas dos eventos em outras áreas da biotecnologia. Ou seja, a condenação da empreendedora Elizabeth Holmes quanto ao modelo de negócio da sua startup Theranos imprimiu no mercado um perfil de risco “hiper-elevado” a investimentos em biotecnologia. Isto significa que o investidor terá um papel altamente prudente e conservador ao analisar modelos de negócio biotecnológicos.

Além disso, no caso particular de Portugal, o ecossistema empresarial vigente para a biotecnologia azul é estreito e com fraca escala. Com exceção no domínio alimentar, o nosso país não dispõe de grandes empresas com capacidade de investimento em alta escala e “em maratona” de longo prazo nos setores da cosmética e farmacêutica, por exemplo.

B2B: o mercado estratégico a explorar
Então significa que devemos simplesmente colocar a biotecnologia azul de lado e focar-nos em outros setores da economia azul? Nada disso. A realidade indica que é crucial identificar em que áreas da cadeia de valor da fileira da biotecnologia azul Portugal deve se posicionar estrategicamente.

Os dados da plataforma Hub Azul Dealroom irão nos ajudar a identificar vias possíveis. Quando se analisa a informação da lista de empresas por foco setorial biotecnológico, verifica-se que a maioria destas e com valorização mais elevada situa-se no sub-setor alimentar, sobretudo no fabrico de novos produtos alimentares, para o mercado b2b.

Portanto, um dos “insights” estratégicos possíveis a partir desta informação é que as startups portuguesas deverão concentrar o foco dos seus esforços na biotecnologia azul em inovação para a criação de “componentes alimentares” para uso no fabrico de produtos alimentares finais. Por exemplo, criação de uma farinha de algas para aplicação em barras energéticas, cereais de pequeno-almoço ou comida para animais de estimação.

À primeira vista, esta leitura pode ser interpretada como pouco ambiciosa, simplista e de baixa sofisticação. Mas no final do dia é o modelo de negócio que está a funcionar e a monetizar a ciência que fundeia a iniciativa empresarial – é o pragmatismo do empreendedor e do investidor que concretiza a paixão do cientista, e torna realidade a economia azul sustentável geradora de empregos e de riqueza inclusiva.

Artigo publicado no Jornal de Negócios: https://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/ruben-eiras/detalhe/mercado-b2b-alimentar-e-a-chave-da-biotecnologia-azul

A IMPARÁVEL ONDA DE INOVAÇÃO NA NOVA ECONOMIA AZUL

Isto dos Descobrimentos não se fizeram indo a acertar”, frisou o emérito Pedro Nunes algures no século XVI. Não temos medo em errar – mas temos de estar sempre conscientes de não nos esquecermos de aprender com o erro. Sendo assim na nossa ação, Portugal será uma imparável onda de inovação na nova economia azul!

Por Ruben Eiras – Secretário-Geral do Fórum Oceano


A economia azul tem um potencial de crescimento muito assinalável, devido à multitude de setores que a compõem: pescas, aquacultura, transformação de pescado, portos, transporte marítimo, turismo, energias renováveis oceânicas, biotecnologia azul, enfim. Sendo assim, parece que, à primeira vista, é um setor propenso à atração de investimento e de geração de novos negócios.

Mas não é bem esse o caso. Apesar de registar um crescimento regular anual em Portugal (em média, até 1% anual desde 2012), de acordo com a conta-satélite da Economia do Mar, publicada pela Direção-Geral da Política do Mar (DGPM) e pelo Instituto Nacional de Estatística, e também de se verificar a mesma tendência no espaço da União Europeia, o facto é que investir na economia azul continua a ter um risco elevado.

E porquê? Primeiro, devido ao contexto do meio natural onde o investimento é implementado. O mar é o ambiente mais hostil à atividade humana depois do espaço sideral. O meio líquido marinho é instável, a salinidade corrói os materiais, a pressão impiedosamente esmaga ao passo que a profundidade aumenta, a comunicação faz-se primordialmente por sinais acústicos e visualização de imagem em situação física de elevada limitação.

Segundo, pela assimetria de informação existente não só do ecossistema marinho (ainda há muitos “gaps” de dados sobre o mar), mas também nos diversos setores que constituem a economia do mar. Isto é, como investidor, se quero focar o meu capital nas energias renováveis oceânicas e no transporte marítimo, vou ter muito melhor informação sobre o último setor, devido a este ter maior maturidade. Mas mesmo no “shipping”, essa informação é estreita, pois é uma indústria ainda muito alicerçada no paradigma “o segredo é a alma do negócio”.

Para mitigar a assimetria de informação no mercado da economia azul, e facilitar um ambiente de confiança que conduza a uma melhor conexão entre investidores e inovadores, o Fórum Oceano lançou o Hub Azul Dealroom no passado dia 22 de maio, a primeira plataforma digital para negócios da economia azul do mundo, no contexto da sua missão como responsável pela coordenação e desenho do modelo de negócio da Rede Hub Azul Portugal, em articulação com a Presidência do Conselho Estratégica do mesmo, presidido pela DGPM.

Com quase 1100 startups listadas em 10 setores da economia azul e com mais de 1200 fundos de investimento registados, a plataforma Hub Azul Dealroom funciona com base num motor de inteligência artificial avançado que não só atualiza automaticamente a base de dados, como também fornece uma poderosa ferramenta de “matchmaking” de investidores com startups.

Mas as funcionalidades não se ficam por aqui. O utilizador pode ter as suas listas de monitorização de empresas, fundos de investimento e aceleradores personalizadas, como também pode consultar os valores de mercado e rondas de investimento por setor de economia azul, segundo a categorização usada pela Blue Invest da Comissão Europeia. E as startups já podem também incluir um “pitch deck” no seu perfil para aumentar a atratividade junto dos investidores, sendo possível também identificar aquelas cujo modelo de negócio cumpre o “Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 – Vida debaixo de Água”.

O acesso ao Hub Azul Dealroom é gratuito e é um primeiro resultado concreto do financiamento PRR em execução pelo Fórum Oceano, na missão que lhe é consignada como entidade gestora do Cluster do Mar Português e que aumentará em muito o valor dos nossos serviços aos nossos associados, posicionando-nos cada vez mais como uma associação empresarial fornecedora de serviços de inovação de valor acrescentado para a economia azul sustentável.

Prova da confiança nesta rota de navegação é a associação da Caixa Geral de Depósitos, da Euronext Lisbon, da Startup Portugal, do Katapult Ocean, do Porto de Lisboa e da Blue Invest da Comissão Europeia como “co-igniters” do Hub Azul Dealroom.

Mas não podemos embandeirar em arco e esquecer a humildade que tão estratégica é para construirmos um projeto truísta.

“Isto dos Descobrimentos não se fizeram indo a acertar”, frisou o emérito Pedro Nunes algures no século XVI. Não temos medo em errar – mas temos de estar sempre conscientes de não nos esquecermos de aprender com o erro.

Sendo assim na nossa ação, Portugal será uma imparável onda de inovação na nova economia azul!

Artigo publicado no Jornal de Negócios: https://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/detalhe/a-imparavel-onda-de-inovacao-na-nova-economia-azul